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Habitação municipal: Dinamarca e Países Baixos repartem o risco em camadas

A 14 de setembro de 2026, a Task Force da Habitação da Comissão Europeia e a Housing Europe dedicaram o segundo workshop sobre habitação municipal à partilha de risco, à manutenção e à aceitação social. Na Dinamarca, o risco reparte-se entre inquilinos (2%), município (8-12%), crédito com garantia do Estado e um fundo do setor; nos Países Baixos, Estado e municípios são a última de três camadas.

Diapositivo de abertura do 2.º workshop temático da Comissão Europeia sobre habitação municipal, em letras amarelas sobre fundo azul.
Diapositivo de abertura do 2.º workshop temático sobre habitação municipal, Comissão Europeia, Centro Borschette, Bruxelas. O diapositivo indica 2025 por lapso; a sessão decorreu a 14 de setembro de 2026. © União Europeia, 2026.
Publicado no Radar em 23 de setembro de 2026
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Nota editorial

A Fundação Âncora, editora deste Radar e fundada por Pedro S. Sarmento, participou em linha no workshop aqui noticiado. Cita os modelos dinamarquês e neerlandês, o fundo rotativo e a renda de custo como referências do seu próprio desenho institucional, e é interessada potencial nos instrumentos de partilha de risco e nos contratos entre municípios e operadores que a entrada descreve. O leitor deve ter presente este interesse na leitura da secção «Observação a partir da Fundação Âncora».

O que aconteceu

A 14 de setembro de 2026, a Task Force da Habitação da Comissão Europeia, na Direção-Geral da Energia, e a Housing Europe, a federação europeia da habitação pública, cooperativa e social, realizaram em Bruxelas e em linha a segunda edição do workshop sobre habitação municipal, Developing an efficient ecosystem for municipal housing. Cinco dias depois da proposta do Affordable Housing Act, a sessão juntou administrações nacionais, cidades, federações de operadores e investigadores em torno de três temas: aceitação social, partilha de risco, e gestão e manutenção do parque, incluindo a resiliência a catástrofes naturais. O relatório e as apresentações foram enviados aos participantes a 22 de setembro e não estavam publicados no sítio da Comissão à data desta entrada.

Na abertura, Stefan Moser, chefe de unidade da Task Force, descreveu as soluções municipais não lucrativas e de lucro limitado como as mais eficientes e economicamente viáveis para a acessibilidade de longo prazo e recapitulou a primeira edição, de 8 de junho: os sistemas com um pilar não lucrativo forte resistiram melhor à subida das rendas; os municípios mais pequenos não chegam sozinhos ao BEI ou ao CEB e precisam de veículos de agregação, como a Kommuninvest sueca ou a MuniFin finlandesa; a contratação conjunta do modelo sueco Kombohus baixou o preço em 25 por cento; e a residualização é a principal ameaça aos modelos universalistas, com a lista de espera da Paris Habitat a chegar a perto de 300 mil candidatos e a dez anos de espera média.

Niccolò Cusumano, professor da SDA Bocconi, propôs na conferência de abertura "abrir a caixa negra" do desempenho das empresas municipais de habitação "sem reduzir o valor público a um único rácio financeiro": estes operadores perseguem fins públicos com disciplina comercial, decidem dentro de regras de renda e de atribuição fixadas por outros, e não existe ainda um referencial europeu comum para os comparar. Sobre o risco, a tese foi que o balanço é só a primeira camada: o operador suporta as rendas em atraso, mas um operador municipal raramente suporta sozinho o risco extremo, porque a propriedade, a regulação e as garantias criam uma retaguarda pública; o desempenho deveria, por isso, reportar o risco retido e o apoio público contingente. Sobre a manutenção, nenhum modelo, da gestão direta à parceria de longo prazo, é superior por definição; decidem o contrato, a capacidade de gestão e a prestação de contas.

Na sessão sobre partilha de risco, Bent Madsen, diretor executivo da BL, a federação dinamarquesa da habitação não lucrativa (almene boliger), descreveu um setor de cerca de 600 mil casas e perto de um milhão de residentes, 20 por cento do parque, presente em todos os municípios. A lista de espera é aberta a todos, sem critério de rendimento; o município dispõe de uma em cada quatro casas que vagam, para famílias em necessidade grave, e pode acordar com o operador uma atribuição flexível, por exemplo com prioridade a quem trabalha no concelho. Cada associação é uma entidade privada com democracia dos inquilinos, supervisionada pelo município e pelo fundo nacional, e as rendas seguem o princípio do custo.

Uma casa nova do setor não lucrativo dinamarquês financia-se em três parcelas: 2 por cento de caução dos inquilinos, 8 a 12 por cento de capital do município, emprestado sem juros nem amortização durante 50 anos, e 86 a 90 por cento de crédito hipotecário com garantia do Estado.

A associação paga todos os anos 2,8 por cento do custo inicial, atualizado pela inflação, e o Estado cobre o restante serviço da dívida: subsidia quando os juros estão altos e pode ficar com excedente quando estão baixos, segundo a ficha que a Housing Europe dedicou ao modelo. Amortizado o crédito, a renda não desce: dois terços do que os inquilinos continuam a pagar seguem para o Landsbyggefonden, o fundo nacional, e um terço para fundos locais. Criado em 1967 por acordo político, o fundo pertence coletivamente às organizações de habitação, não é uma entidade pública, e os seus recursos não podem ser desviados para outros fins; financia renovações e, segundo a apresentação da BL, cerca de 40 milhões de euros por ano de programas sociais para 200 mil residentes em 50 bairros.

Tim Wolters, da Aedes, a federação das associações de habitação neerlandesas (woningcorporaties), apresentou o outro modelo: entidades privadas com missão pública fixada na Lei da Habitação, donas de cerca de 30 por cento das casas do país, com rendas reguladas pela qualidade e contratos sem termo. Em 2026, o grupo-alvo principal são agregados com rendimento anual até 51.537 euros, se forem de uma pessoa, ou 56.910 euros, nos restantes casos; a renda máxima de uma casa social é de 932,93 euros e a média era de 643 euros no fim de 2025, antes do subsídio de renda. O apoio público chega sobretudo como garantia, através do fundo do setor, o Waarborgfonds Sociale Woningbouw (WSW).

3 camadas no sistema de garantia neerlandês: o capital de risco do próprio WSW, depois a garantia mútua das associações sãs e, em último recurso, o Estado e os municípios, a meias, com empréstimos sem juros. A terceira camada nunca foi acionada; o WSW cobre 98 por cento do setor e mais de 90 mil milhões de euros de empréstimos

Com o município, as associações assinam acordos de desempenho locais (prestatieafspraken), a três, com a organização de inquilinos: o município define a política, a associação responde com uma proposta de contributo e mantém a decisão de investimento, e o acordo cobre disponibilidade, acessibilidade económica, qualidade e habitabilidade, com litígios resolvidos entre as partes, depois pelo ministro e, por fim, em tribunal. A lei que reforça a direção pública da habitação (Wet versterking regie volkshuisvesting), em vigor desde 1 de julho de 2026, torna obrigatório um programa municipal de habitação até julho de 2027, fixa a meta de dois terços de habitação nova a preço acessível, 30 por cento em arrendamento social, e alarga a resolução de litígios ao cumprimento dos acordos. Wolters sublinhou a pressão: as rendas reguladas nem sempre cobrem a construção nova e a renovação, e as associações estão expostas aos juros, ao custo dos materiais e ao licenciamento.

Sobre aceitação social, a jurista Marina Pérez Jiménez apresentou o compromisso social que a Viviendas Municipales de Bilbao, com cerca de 4.300 casas, muitas em prédios partilhados com proprietários privados, assina com cada inquilino, juridicamente separado do contrato de arrendamento: obrigações de boa vizinhança de um lado, direitos de apoio e de manutenção da casa do outro, sob o lema "se a convivência se rompe, rompe-se o contrato". O operador regista cerca de 230 incidentes por ano, em 162 casas, perto de 4 por cento do parque; alguns participantes objetaram que o compromisso pesa mais nos deveres dos inquilinos do que nos do senhorio.

Sobre manutenção, a ACER Ravenna, que gere mais de 4.800 casas de 18 municípios, sofreu entre maio de 2023 e outubro de 2024 três cheias e um tornado, com 9,1 milhões de euros de danos em maio de 2023, 615 mil em julho e 5,7 milhões no outono de 2024. A presidente, Lina Taddei, descreveu um registo digital de cada casa, que permite passar da manutenção reativa à planeada, e um acordo-quadro que fixa num único concurso condições, preços e operadores por até quatro anos, com a província dividida em duas zonas e quatro empresas, duas delas de reserva. O seguro não cobre a totalidade dos danos e a ACER não consegue financiar sozinha a adaptação. O relatório da Housing Europe sobre adaptação climática, de março, generaliza: o investimento é "inadequado", a maioria dos mecanismos de financiamento privilegia a eficiência energética sobre a resiliência, e em Itália os seguros cobriram 27 por cento dos danos das cheias de 2023.

No encerramento, Sorcha Edwards, secretária-geral da Housing Europe, anunciou que os European Responsible Housing Awards passam a ter o apoio da Task Force e recebem candidaturas até 31 de dezembro de 2026, para entrega no International Social Housing Festival, que a Gebalis e a Câmara Municipal de Lisboa organizam em Lisboa de 7 a 9 de junho de 2027. Moser indicou que a Task Force vai continuar a organizar workshops temáticos.

O que significa para o ecossistema

Três leituras para Portugal, e uma data.

A primeira é que, nos sistemas que duram, o risco reparte-se em camadas, e cada uma fica com quem a pode suportar. Na Dinamarca, os inquilinos põem 2 por cento e a renda que continua depois da dívida; o município, capital paciente a 50 anos; o Estado, a garantia e o diferencial de juros; o setor, um fundo que é seu. Nos Países Baixos, o Estado e os municípios ficam atrás de duas camadas do próprio setor. Em Portugal, o financiamento salta do inquilino para o Estado, entre subsídios à renda, comparticipações do 1.º Direito e as garantias de 4 mil milhões de euros anunciadas pelo Banco Português de Fomento; as camadas do meio quase não existem, porque falta o setor que as constitua, com 2 por cento de parque público ou não lucrativo. E o fundo rotativo tem uma condição prévia: só há excedente para reciclar quando a renda se forma pelo custo e se mantém depois de amortizada a dívida. As rendas do arrendamento apoiado municipal indexam-se ao rendimento do agregado e não foram desenhadas para gerar excedente; o manual #Housing2030 da ONU põe Portugal nessa coluna. A OCDE recomendou pilotar um fundo rotativo e a Recomendação do Affordable Housing Act pede reinvestimento obrigatório dos excedentes; a lição dinamarquesa é que o fundo nasce da renda de custo, não a antecede. Para os financiadores, fica o corolário de Cusumano: ler um operador pelas rendas em atraso, sem o risco que retém e o apoio público contingente, é ler só a primeira camada.

A segunda leitura é contratual. Em nenhum dos dois países o município gere as casas, e em ambos decide: na Dinamarca, cofinancia, supervisiona e dispõe de uma casa em cada quatro; nos Países Baixos, fixa a política e assina com o operador e os inquilinos um acordo que a reforma de julho torna mais exigível. Em Portugal, as Estratégias Locais de Habitação fazem o diagnóstico e fixam metas, mas são sobretudo a condição de acesso ao 1.º Direito, um compromisso do município com o Estado e não com quem constrói e gere; falta o instrumento que as ligue a um operador com obrigações verificáveis, a lacuna que os municípios descrevem. A cláusula dinamarquesa, uma casa em cada quatro para a lista municipal e prioridade a quem trabalha no concelho, é o género de contrapartida que um município pode exigir quando cede solo em direito de superfície, com 31 mil famílias em lista de espera na Área Metropolitana de Lisboa e concelhos como Sines sem casa para quem lá vai trabalhar. E a lista aberta, sem teto de rendimento, é a defesa que a primeira edição opôs à residualização.

A terceira é que a manutenção é um modelo de negócio, não uma rubrica. Ravenna somou cerca de 15 milhões de euros de danos em ano e meio, mais de 3 mil euros por casa do parque. O acordo-quadro que usa não é figura italiana: vem da diretiva europeia de contratação pública, com o mesmo limite de quatro anos, e está no Código dos Contratos Públicos. O que Ravenna acrescenta é o uso, um concurso único para manter um parque disperso, com preços fixados à partida e operadores de reserva, e um registo de cada casa que antecipa em vez de reagir. É a disciplina que o custo de ciclo de vida exige a um parque que se queira acessível durante décadas, e que a auditoria da IGF às frações devolutas do IGFSS mostrou faltar quando o proprietário não tem estrutura para gerir o que tem. Para as empresas municipais portuguesas, a tese de Cusumano desloca a pergunta: importa menos escolher entre gestão direta e contratação externa do que desenhar o contrato e ter capacidade para o fiscalizar.

A data é junho de 2027. O International Social Housing Festival chega pela primeira vez a Portugal, na sua sexta edição, e com ele a entrega dos European Responsible Housing Awards, que em 2025, em Dublin, distinguiram a cooperativa catalã Sostre Cívic na categoria de financiamento inovador. Para operadores, cooperativas e municípios portugueses, o prazo das candidaturas, 31 de dezembro, já corre.

Observação a partir da Fundação Âncora

A 9 de setembro, a Recomendação que acompanha o Affordable Housing Act enumerou as peças: fundos rotativos, reconhecimento legal dos operadores de lucro limitado, solo público cedido a longo prazo. Cinco dias depois, a Task Force mostrou como se montam. A Dinamarca e os Países Baixos diferem em quase tudo, um financia projeto a projeto com crédito hipotecário, o outro financia o balanço com empréstimos garantidos, e coincidem no princípio: cada camada absorve a sua parte antes de a seguinte ser chamada, e a pública é a última, não a primeira. É isso que torna barata a garantia do Estado; no WSW, as camadas anteriores bastaram sempre.

Portugal tem a primeira camada e a última. Falta a do meio, que só os operadores podem construir: capital próprio, rendas de custo que não descem quando a dívida acaba e um fundo que pertence ao setor e não pode ser desviado. São os três elementos comuns aos modelos europeus que mantiveram parque durável, da renda de custo austríaca e do seu fundo rotativo ao Landsbyggefonden, e os que mais custam a criar num mercado em que a propriedade é a opção por defeito. O fundo dinamarquês vive hoje das rendas de casas cuja dívida se pagou há décadas: um fundo rotativo mede-se em gerações e começa a contar no primeiro contrato que fixa a renda pelo custo.

O município não precisa de ser operador para ter o que tem o município dinamarquês, uma casa em cada quatro, atribuição flexível, supervisão; precisa de o escrever no contrato. E de medir o que o contrato entrega com mais do que um rácio, o retorno social que Portugal não mede. Vale acompanhar os próximos workshops da Task Force e o que o setor europeu trará a Lisboa em junho de 2027.

Fontes

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