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OECD Economic Survey Portugal 2026 recomenda piloto de fundo rotativo para habitação acessível

O OECD Economic Survey Portugal 2026, publicado a 6 de janeiro, dedica capítulo especial à habitação acessível. Reconhece formalmente que Portugal carece de tradição de operadores de lucro limitado e recomenda, explicitamente, que o país pilote um proof of concept de fundo rotativo para habitação acessível. É a primeira vez que a OCDE desenha, em documento público, a arquitectura que operadores como a Fundação Âncora procuram institucionalizar.

Publicado no Radar em 7 de janeiro de 2026

O que aconteceu

A 6 de janeiro de 2026, a OCDE publicou o Economic Survey Portugal 2026, com 145 páginas e capítulo especial dedicado a habitação acessível e inclusiva. A apresentação pública em Lisboa foi feita pelo Director of Country Studies da OCDE, Luiz de Mello, em conjunto com o Secretário de Estado Adjunto e das Finanças, José Maria Brandão de Brito.

O capítulo especial sobre habitação identifica um conjunto de falhas estruturais do mercado português e formula recomendações específicas. Entre as mais relevantes, três merecem destaque.

Primeiro, a OCDE reconhece explicitamente que Portugal carece de tradição de operadores de lucro limitado em habitação, contrastando com países como a Áustria ou os Países Baixos, onde esses operadores entregam a maior parte do parque habitacional acessível. Segundo, o Survey confirma a existência de um missing middle, ou seja, agregados de rendimento médio inelegíveis para habitação social mas incapazes de aceder ao mercado. Terceiro, recomenda que Portugal pilote um proof of concept de fundo rotativo para habitação acessível, baseado em financiamento misto de dívida bancária, empréstimos públicos a taxa preferencial e equity filantrópico.

Portugal carece de tradição de operadores de lucro limitado em habitação. Recomenda-se pilotar um proof of concept de fundo rotativo.

As recomendações estruturais abrangem também a simplificação de procedimentos de licenciamento, a revisão da tributação imobiliária com foco em eficiência e equidade, e o reforço de apoios dirigidos a agregados vulneráveis.

O que significa para o ecossistema

A importância deste Survey não está no diagnóstico (que já era conhecido) mas na prescrição (que é nova). Ter a OCDE a desenhar, em documento oficial apresentado ao Governo português, o contorno preciso de um instrumento de terceiro sector habitacional é marcador institucional.

Três consequências.

A primeira é de legitimação técnica. O proof of concept de fundo rotativo descrito pela OCDE é, na prática, a arquitetura de revolving fund que a Áustria usou para construir um parque habitacional sem fins lucrativos representativo de mais de 20% do stock total. Até agora, em Portugal, esta arquitetura era discutida por especialistas mas não reconhecida como via oficial. Com esta recomendação, passa a ser.

A segunda é de cobertura política. Um pequeno conjunto de recomendações da OCDE tipicamente informa o Programa Nacional de Reformas e os compromissos do Portugal 2030. A criação, dois meses depois, do grupo de trabalho interministerial via Despacho 3089/2026, não nomeia o Survey mas sobrepõe-se precisamente ao seu mandato.

A terceira é de comparação internacional. Portugal passa a ter, pela primeira vez, um benchmark externo que contrasta o seu modelo habitacional com os de países de referência. Esse benchmark alimenta argumentário para investidores europeus, bancos promocionais e organismos internacionais que avaliem projectos portugueses.

Observação a partir da Fundação Âncora

O Survey descreve, em linguagem da OCDE, a mesma tese central que a Fundação Âncora vem articulando desde a sua constituição. A convergência não é coincidência: reflete o reconhecimento crescente, em múltiplas fronteiras analíticas, de que a arquitectura de terceiro sector habitacional é peça em falta no sistema português.

Dois pontos merecem leitura operacional.

Primeiro, a Fundação Âncora pode assumir, em documentação técnica e em diálogo institucional, que a sua proposta se enquadra exatamente no proof of concept recomendado pela OCDE. Isso muda o eixo da conversa com autarquias, bancos e investidores: deixa de ser "uma ideia nova" para passar a ser "a aplicação concreta de uma recomendação OCDE". Politicamente e tecnicamente, é distância substancial.

Segundo, a ausência, no Survey, de menção explícita a operadores específicos em formação em Portugal é esperada e não reduz a relevância. A OCDE desenha princípios gerais; cabe aos operadores demonstrar que os princípios têm execução possível. O Radar Âncora acompanhará como o Survey é mobilizado nos próximos meses pelos actores institucionais portugueses, na AD&C, no IHRU, no Ministério da Infraestrutura e Habitação e nas autarquias mais ativas.

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Fontes