Um repositório editorial da Fundação Âncora · Habitação acessível permanente em Portugal
· Dados e Estudos · estados-unidos, internacional · mckinsey

McKinsey: investir em habitação para destravar a mobilidade económica

A 11 de fevereiro de 2025, o McKinsey Institute for Economic Mobility quantificou o custo e o retorno da escassez habitacional norte-americana: um défice de 8,2 milhões de fogos em 2023 (até 9,6 milhões em 2035) e, do outro lado, 2,7 biliões de dólares de investimento capazes de gerar perto de dois biliões de PIB e até 1,7 milhões de empregos. O relatório enquadra a habitação acessível como investimento em mobilidade económica e propõe cinco soluções, quase todas do lado do arrendamento e da acessibilidade permanente. O Radar lê a fonte de forma crítica: o eixo racial não transpõe para Portugal e o instrumental fiscal americano também não, mas a arquitetura (captura de valor do solo ao estilo de Copenhaga, capital de missão, acessibilidade permanente) converge com o caso de investimento europeu medido pelo WIFO e com a tese de custo justo. Falta o estudo que ponha um número no que Portugal ganha.

Publicado no Radar em 29 de maio de 2026
Partilhar

O que aconteceu

A 11 de fevereiro de 2025, o McKinsey Institute for Economic Mobility (antes McKinsey Institute for Black Economic Mobility) publicou "Investing in Housing: Unlocking Economic Mobility for Black Families and All Americans", um relatório de 52 páginas liderado por JP Julien e Shelley Stewart III. O trabalho é independente, não encomendado nem patrocinado, e assenta numa meta-análise de mais de 80 soluções catalogadas a partir de uma década de investigação de mais de 50 think tanks, académicos e associações sectoriais, complementada por entrevistas com especialistas. A tese de partida: a habitação, arrendada ou comprada, é a infraestrutura da mobilidade económica, e tornou-se uma barreira em vez de uma porta de entrada.

O diagnóstico tem três camadas. Primeiro, a escala: os Estados Unidos tinham, em 2023, um défice de 8,2 milhões de fogos, que sem ação poderá chegar a 9,6 milhões em 2035 (o modelo da McKinsey vai além dos habituais ao contabilizar a sobreocupação, que sozinha pesa 3,7 milhões de fogos nessa projeção). Segundo, a distribuição desigual: perto de 60 por cento dos arrendatários negros e 30 por cento dos proprietários negros estão em sobrecarga de custo moderada ou severa, bem acima da média nacional. Terceiro, os três motores da escassez: custos altos de solo e construção (o solo é o maior, com 75 por cento do solo residencial reservado a moradia unifamiliar, e os materiais 37 por cento acima do nível pré-pandemia), capital escasso para habitação acessível, e rendimentos insuficientes.

O relatório identifica quatro vias por que a habitação molda a mobilidade: domina o orçamento familiar (é a maior despesa da maioria das famílias); o bairro determina o acesso a emprego, escolas e serviços; a qualidade da habitação afeta a saúde; e a propriedade continua a ser o principal motor de riqueza (a casa vale 50 a 70 por cento do património líquido da classe média, e o fosso de propriedade negro-branco alargou de 24 para mais de 29 pontos percentuais entre 1970 e 2022). Sobre esta última via assenta o enquadramento de mobilidade, lido em três dimensões: sucesso económico, dignidade e pertença, poder e autonomia.

O contributo mais forte está no capítulo da oportunidade, que quantifica o retorno de fechar o défice. Fechar o gap até 2035 exigiria 2,7 biliões de dólares de investimento cumulativo e geraria perto de dois biliões (1,9) de PIB acumulado, o equivalente à economia do Brasil em 2023, e até 1,7 milhões de empregos, mais de 700 mil na construção. Citando Hsieh e Moretti (2019), o relatório lembra que a má-alocação espacial provocada pela escassez de habitação pode ter reduzido o crescimento do PIB americano em até 36 por cento entre 1964 e 2009. E, ponto decisivo para a acessibilidade: com intervenção, os preços cresceriam 2,1 por cento ao ano, abaixo do rendimento; sem ela, 3,8 por cento, acima. Cerca de seis milhões de famílias sobrecarregadas deixariam de o estar.

A inversão é o ponto. Resolver a escassez deixa de ser despesa social a conter e passa a investimento com retorno macroeconómico: 2,7 biliões de dólares de capital para gerar perto de dois biliões de PIB, até 1,7 milhões de empregos e seis milhões de famílias aliviadas.

O capítulo das soluções é o que distingue o relatório de um diagnóstico. A McKinsey destila cinco temas e quantifica o impacto de cada um: no conjunto, poderiam servir 1,8 a 2,3 milhões de famílias em dez anos, das quais cerca de 30 por cento negras. O primeiro tema, desbloquear solo por incentivos e parcerias, é de longe o maior (cerca de 1,0 a 1,25 milhões de fogos) e cruza upzoning orientado a transportes, captura de mais-valias fundiárias (tax increment financing, dividendos diretos a residentes) e corporações públicas de solo. O exemplo internacional que a McKinsey eleva é a Copenhagen City & Port Development Corporation: entidade de propriedade pública e gestão privada que recebe solo público, reclassifica-o, capta a valorização, financia-se a baixo custo na notação AAA da cidade e reinveste o produto no espaço público. O segundo tema, mobilizar capital privado, apoia-se na maquinaria fiscal americana (o crédito LIHTC, que financiou cerca de 4 milhões de fogos desde 1986 e um quarto dos apartamentos novos entre 2000 e 2019, mais bonds isentos e portefólios CRA/CDFI). O terceiro, escalar a construção off-site (a modular é 20 a 50 por cento mais rápida e cerca de 20 por cento mais barata, mas ainda só 3 a 4 por cento das conclusões). O quarto, reinvestir em habitação pública e capital partilhado, parte de um backlog de 115 mil milhões de dólares no parque público e usa o programa RAD para converter fogos em contratos de acessibilidade permanente, com mais de 300 entidades de capital partilhado, incluindo community land trusts com pactos de revenda abaixo do mercado. O quinto, reformular o programa federal Section 8 de vouchers de arrendamento (5 milhões de pessoas servidas, mas só uma em cada quatro famílias elegíveis, 2,5 anos de espera e 60 por cento de taxa de utilização efetiva).

O que significa para o ecossistema

Para um leitor europeu, o valor está no enquadramento e na arquitetura das soluções, não na transposição literal. Duas distâncias marcam-se primeiro, mas a segunda inverte-se de forma instrutiva quando se lê o relatório até ao fim.

A primeira distância é de contexto. O eixo do relatório é racial e norte-americano, ancorado no fosso de riqueza das famílias negras e numa história específica de discriminação habitacional. Não tem decalque em Portugal. Universalizado (e o título, com "and all Americans", autoriza-o), o argumento mantém-se: o problema português exprime-se noutra linguagem, a da classe média profissional que deixou de poder viver onde trabalha, mas a casa é, aqui como lá, a infraestrutura da oportunidade.

A segunda distância parecia a mais séria e revela-se a mais subtil. O enquadramento de mobilidade da McKinsey privilegia a propriedade como escada de riqueza. Mas o conjunto das cinco soluções é quase todo do lado do arrendamento e da acessibilidade permanente, não da compra: upzoning para multifamiliar, LIHTC para multifamiliar, modular para multifamiliar, conversões RAD com contrato de acessibilidade permanente, community land trusts, vouchers de arrendamento. Só uma das cinco, e em parte, toca a propriedade individual. Ou seja: a moldura inclina-se para a propriedade, mas o instrumental inclina-se para o arrendamento. A divergência real face a um modelo europeu de custo justo não é, portanto, propriedade contra arrendamento. É de instrumentos: a McKinsey opera por crédito fiscal, bonds e vouchers (LIHTC, PAB, CRA, Section 8), enquanto a via europeia opera por cost-rent e capital institucional paciente. O fim é próximo; a engrenagem é outra.

E aqui o relatório converge com a evidência europeia mais do que admite. O seu maior lever, desbloquear solo, culmina no exemplo de Copenhaga, que é captura pública de valor fundiário: separar a propriedade do solo da do edifício, financiar com capital barato de grau soberano e reinvestir a valorização no interesse coletivo. É a mesma gramática do direito de superfície e do capital paciente que organiza o debate europeu de custo justo. Do lado macro, o número da McKinsey (investir para gerar PIB, emprego e alívio de custo) tem o seu equivalente medido na Europa: o estudo do WIFO sobre o setor austríaco de lucro limitado, analisado no Radar, mostrou que o setor poupa 1,2 mil milhões de euros por ano aos arrendatários, acrescenta 640 a 980 milhões ao PIB e é benefício líquido para o orçamento, com o valor a vir do modelo (cost-rent, lucro limitado, reinvestimento) e não dos subsídios. Lidos juntos, McKinsey e WIFO sugerem o que nenhum diz isoladamente: o caso de investimento é mais forte, e mais barato para o erário, quando o capital é canalizado por estruturas de renda calibrada pelo custo.

Falta a nuance que o relatório, escrito para os Estados Unidos, não tinha de fazer. A McKinsey assume que aumentar a oferta alivia os preços (2,1 contra 3,8 por cento ao ano). A leitura do Fed de São Francisco, também no Radar, mostra que a oferta nova de mercado responde sobretudo na composição (qualidade, segmento) e não na quantidade no segmento acessível, a menos que uma arquitetura institucional dirija o capital para lá. As soluções da McKinsey, repare-se, são quase todas dessa natureza: incentivos, capital de missão, conversões com acessibilidade permanente. Não é "construir mais" em abstrato; é construir com instrumentos que fixam a acessibilidade.

Observação a partir da Fundação Âncora

Três leituras a partir da Fundação Âncora.

A primeira é de coerência, agora ancorada na fonte. O enquadramento da McKinsey é o argumento da Fundação dito noutra língua e com número americano: habitação acessível é investimento em mobilidade, não subsídio. Que uma consultora global o quantifique para a maior economia do mundo (1,9 biliões de PIB, 1,7 milhões de empregos, e a má-alocação espacial a custar até 36 por cento de crescimento ao longo de décadas) dá peso de terceiro, credível e sem suspeita de militância, a uma ideia ainda recebida em Portugal com ceticismo: pôr a classe média em casa acessível é decisão de crescimento.

A segunda é de mapeamento, com seletividade. As cinco soluções leem-se, do ponto de vista Âncora, como uma grelha conhecida com etiquetas americanas. Desbloquear solo, no caso de Copenhaga que a McKinsey escolhe, é o nosso direito de superfície e a captura de valor para a acessibilidade. Mobilizar capital privado é a Nota de Impacto Social e a dívida de impacto da banca com garantia soberana, em condições de mercado e sem despesa orçamental direta, no lugar do crédito fiscal LIHTC. Reinvestir com acessibilidade permanente e capital partilhado é a gramática do lucro limitado e do Pacto pela Habitação Permanente. O que fica de fora é justamente o que é mais americano e menos transponível: a maquinaria de crédito fiscal, de bonds e de vouchers, que pressupõe uma capacidade orçamental e fiscal federal que Portugal não tem.

A terceira é programática, e é a mais útil. A McKinsey faz pela mobilidade económica americana o que Portugal ainda não fez: põe um número no retorno de resolver a escassez. O contraste com os dados portugueses é gritante. Portugal gasta cerca de 1 por cento do PIB em habitação, contra mais de 3 por cento dos Países Baixos, Suécia e Reino Unido, e tem 2 por cento de parque público contra cerca de 15 por cento de média europeia, como o Radar documentou a partir do Eurostat. Falta a peça que junte o enquadramento de mobilidade da McKinsey à metodologia de equilíbrio geral do WIFO e ponha um número no que Portugal ganha, em PIB, emprego e despesa pública evitada, ao colocar a classe média em arrendamento de custo justo. É trabalho próprio do Observatório Âncora, em parceria universitária, e daria à tese da Fundação a mesma espinha empírica que a McKinsey deu à sua. O Radar continuará a acompanhar a produção do McKinsey Institute for Economic Mobility sobre habitação e oportunidade.

Fontes

Tem uma sugestão sobre este artigo ou encontrou um erro? Escreva-nos.