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Ipsos: em 29 países, 63% apoiam construir mas só 32% confiam que chegue acessível

Sondagem Ipsos em 29 países (recolha nov.-dez. 2024, publicada em 29 de janeiro de 2025): maioria apoia construir mais casas, mas só 32 por cento confia que vão sair habitações acessíveis suficientes; em Espanha a confiança cai para 20 por cento. Portugal fica fora da amostra, o que reforça o valor do trabalho de evidência primária que já se faz cá.

Gráficos de anel com a percentagem de pessoas felizes ou infelizes com a sua situação habitacional em dez mercados e na média global, segundo a Ipsos: Indonésia e Países Baixos no topo com 79 por cento, média global de 61 por cento.
Gráfico "How happy or unhappy are people around the world with their housing situation?", da página Global Opinion Polls: Housing, Ipsos. Reflete o corte alargado do Housing Monitor 2025 com 30 países, incluindo a Nova Zelândia; os restantes números desta entrada usam a edição de 29 países. © Ipsos.
Publicado no Radar em 10 de novembro de 2025
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O que aconteceu

A 29 de janeiro de 2025, a Ipsos publicou a primeira edição do Housing Monitor, um estudo de perceção pública sobre habitação em 29 países, feito através da plataforma online Global Advisor (com um complemento presencial na Índia). Ouviram-se 21.278 adultos, em recolha entre 22 de novembro e 6 de dezembro de 2024, com representação da Europa (Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Grã-Bretanha, Hungria, Irlanda, Itália, Países Baixos, Polónia, Suécia, Türkiye), das Américas, da Ásia-Pacífico e da África do Sul. Portugal não faz parte da amostra: entre os países ibéricos e do sul da Europa, a Espanha é o único incluído.

O retrato de fundo é de desconfiança generalizada. Em média, 52% dos inquiridos dizem que a habitação no seu país "vai na direção errada", contra 28% que dizem o contrário; em Espanha, o pessimismo sobe a 76%, só superado pelos Países Baixos, com 77%, entre os 29 países. A Ipsos liga parte deste pessimismo à falta de confiança na ação dos governos, e nota-o em particular na Europa: "We see this pessimistic outlook combined with a lack of faith in what the government is doing to make things better, particularly in Europe. The Netherlands and Hungary lead a cohort of European countries who feel their government could be doing more to fix their housing problems, with 69% and 63% respectively expressing this sentiment."

O capítulo dedicado à oferta de habitação acessível é o que mais interessa isolar. Uma maioria (53% em média, 59% em Espanha) concorda que não vai ser possível tornar a habitação mais acessível sem aumentar o número de casas novas construídas todos os anos, e o apoio a essa construção existe: 63% em média (34% "fortemente", 29% "moderadamente") apoiam que se construam mais casas no seu país, com a Espanha acima da média, em 66%. O que falta não é vontade percebida. É a pergunta seguinte que revela o obstáculo real: só 32% em média confiam que serão mesmo construídas casas acessíveis suficientes nos próximos anos; em Espanha, a confiança cai para 20% (75% dizem-se pouco ou nada confiantes), nível de desconfiança só superado pelos Países Baixos (84%), pela Alemanha (81%) e pela Hungria (80%), e igualado pela Suécia. Coerente com isto, apenas 22% dos espanhóis (26% em média global) concordam que já existe habitação acessível suficiente para comprar ou arrendar na sua zona.

O estudo tem assinatura da Ipsos Knowledge Centre, com Jamie Stinson (diretor de conteúdo) e Emilie Rochester (gestora de conteúdo) como responsáveis editoriais.

O que significa para o ecossistema

O dado central não é a insatisfação em si, isso já era conhecido. É o desfasamento entre apoio a construir e confiança de que vá acontecer. Não há um problema de legitimidade política para mais construção; há um problema de confiança na capacidade de entrega. É a mesma mecânica que o Radar já tinha documentado a partir de outro ângulo: quando o Fed de São Francisco e a RICS analisaram a resposta da oferta de mercado à escassez, concluíram que a construção nova responde sobretudo em composição, não necessariamente no segmento que falta, a menos que uma arquitetura institucional dirija o capital para lá. A Ipsos mostra o espelho desse achado do lado da opinião pública: mesmo onde há maioria a favor de construir, a confiança de que o resultado chegue à fatia acessível é baixa.

O relatório confirma também, com números, uma tensão que atravessa a cobertura do Radar sobre modelos internacionais: 78% concordam, em média, que toda a gente tem direito a ter casa própria, mas entre os arrendatários, mais de metade (56%, maioria em 21 dos 29 países) não acredita que alguma vez vá conseguir comprar uma. A aspiração à propriedade mantém-se quase universal; deixou de ser um caminho realista para uma parte substancial da população, mesmo em economias desenvolvidas. É o mesmo pano de fundo que sustenta o argumento, já lido pelo Radar a partir dos Estados Unidos, de que a resposta não está em construir mais em abstrato, mas em estruturas que fixem a acessibilidade fora do ciclo de mercado, tal como o caso de investimento que a McKinsey quantificou para a mobilidade económica também argumenta para os Estados Unidos.

Um dado adicional aponta na mesma direção. A Ipsos descreve a diferença de satisfação entre proprietários e arrendatários como a mais acentuada de todo o estudo, mas nota que essa diferença se estreita justamente nos países com direitos de arrendatário mais fortes, como os Países Baixos, a Alemanha e a Suécia. Segurança habitacional não depende só de ser dono; depende também do desenho do regime de arrendamento.

Não é um problema de vontade: 63% apoiam construir mais casas. É um problema de confiança na entrega: só 32% acreditam que vai sair habitação acessível a sério, e em Espanha a confiança cai a 20%.

Fica uma ressalva de leitura necessária: Portugal não está nos 29 países, e a Espanha, apesar da proximidade geográfica e de dinâmicas de mercado parecidas, não substitui dados portugueses. A ausência de Portugal desta e de outras sondagens internacionais é, também, mais um sinal do valor do trabalho de evidência primária que já se faz cá, como o mapeamento por concelho da necessidade de habitação acessível e a geografia da habitação acessível por mecanismo.

Observação a partir da Fundação Âncora

Três leituras a partir da Fundação Âncora.

A primeira é de coerência. O fosso que a Ipsos mede, apoio maioritário a construir e descrença generalizada de que chegue a acessível, é exatamente o espaço que um modelo de renda fixada ao custo, não dependente de um ciclo de mercado nem de capacidade orçamental do momento, existe para preencher. Como a leitura institucional do mercado português já tinha argumentado, o problema não é preferência cultural por comprar; é a ausência de um canal de arrendamento que entregue de forma previsível. Setores de lucro limitado, como o austríaco, medido pelo WIFO, não dependem deste ciclo de confiança, porque a acessibilidade está desenhada na origem da renda, e não prometida no fim de um processo de construção.

A segunda é de enquadramento. Portugal ficar de fora de um estudo de 29 países não é motivo de alarme; é um lembrete do valor do trabalho de evidência primária que já se faz cá. A Ipsos confirma, à escala internacional, o mesmo tipo de sinal que esse trabalho nacional já vinha sugerindo: a distância entre o que as pessoas gostariam de ver construído e o que acreditam que vai mesmo ser entregue.

A terceira é programática. Se mesmo nos 29 países cobertos pela Ipsos, nenhum deles com a despesa pública em habitação e o parque disponível tão reduzidos como Portugal, a confiança na entrega ronda apenas 20% a 32%, o argumento para instrumentos que não dependam desse ciclo de confiança fica mais forte, não mais fraco. O Radar continuará a acompanhar as próximas edições do Housing Monitor da Ipsos.

Fontes

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