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Parlamento Europeu em Lisboa: crise é severa, resposta tem de ser europeia

Comissão Especial HOUS presidida pela eurodeputada italiana Irene Tinagli visita Lisboa com reuniões na CML, IHRU e Governo. Relatório aponta urgência de instrumentos europeus e valida direcção do European Affordable Housing Plan da Comissão Europeia.

Publicado no Radar em 2 de abril de 2026

O que aconteceu

Entre 30 de março e 1 de abril de 2026, uma delegação da Comissão Especial sobre a Crise da Habitação na União Europeia (HOUS) do Parlamento Europeu visitou Lisboa em missão de averiguação. A delegação foi presidida pela eurodeputada italiana Irene Tinagli (Socialistas e Democratas) e incluiu João Oliveira (Esquerda Europeia, Portugal), Daniel Buda (Partido Popular Europeu, Roménia) e Georgiana Teodorescu (Reformistas e Conservadores Europeus).

Ao longo dos três dias, os eurodeputados reuniram-se com entidades públicas de habitação, cooperativas, representantes do sector imobiliário privado (APPII, a 31 de março), a secretária de Estado da Habitação Patrícia Gonçalves Costa e o secretário de Estado do Planeamento e Desenvolvimento Regional Hélder Reis.

Na conferência de imprensa final, a 1 de abril, Irene Tinagli sintetizou as conclusões: Portugal enfrenta, nas suas palavras, uma crise habitacional de gravidade estrutural. A comissão identificou três factores convergentes: o parque público e social residual de 2%, uma das percentagens mais baixas da União Europeia; a expansão do alojamento local e dos arrendamentos turísticos de curta duração, descritos como uma proporção alarmante em certos bairros de Lisboa; e o investimento especulativo que, nas palavras da delegação, empurra famílias para fora das suas comunidades.

A delegação reconheceu o esforço recente do Estado português, mas considerou a continuação do investimento um desafio crítico à medida que os fundos do PRR se aproximam do prazo final.

A missão insere-se no seguimento da resolução do Parlamento Europeu de 10 de março de 2026, que pediu formalmente a criação de um Plano Europeu para a Habitação Acessível e defendeu mais investimento em oferta não-lucrativa, incluindo soluções públicas, cooperativas e de terceiro sector.

O que significa para o ecossistema

Três leituras relevantes para quem opera em habitação acessível em Portugal.

A primeira é de reforço da narrativa externa. A classificação de "crise severa" por um órgão institucional europeu, em visita oficial, consolida Portugal como caso crítico no mapa europeu de habitação. Isto tem consequências práticas: reforça a elegibilidade para instrumentos europeus prioritários (InvestEU, BEI, Fundos de Coesão), legitima pedidos de reprogramação, e abre portas a financiamento preferencial para operadores portugueses do terceiro sector.

A segunda é de diagnóstico oficial sobre o alojamento local. A comissão descreveu a proporção de habitação destinada a uso turístico como alarmante. O idealista/news recorda os dados: 119.468 alojamentos locais registados em Portugal, equivalendo a 2% do parque nacional, mas com 6% em Lisboa concelho e percentagens substancialmente mais altas em freguesias centrais. A missão PE não propôs medidas específicas, mas inseriu o tema no quadro europeu que a resolução de 10 de março pede: instrumentos de nível UE para regular alojamentos turísticos.

A terceira é de mensagem implícita sobre terceiro sector. A comissão HOUS tem defendido, nas suas resoluções, soluções "públicas, cooperativas e sem fins lucrativos". Em Portugal, onde o terceiro sector habitacional é praticamente inexistente, esta é precisamente a lacuna que a OCDE já apontou no seu Economic Survey Portugal 2026. A convergência de diagnósticos, PE e OCDE, cria uma janela institucional clara para operadores com estas características.

Observação a partir da Fundação Âncora

Três implicações directas para a Fundação Âncora.

A primeira é de enquadramento institucional. A missão do Parlamento Europeu refere explicitamente cooperativas e operadores sem fins lucrativos como parte da solução. Este vocabulário, combinado com a recomendação OCDE de pilotar fundos rotativos, constitui o enquadramento político-institucional mais favorável que o terceiro sector habitacional português encontrou em décadas. Para a Fundação Âncora, operar nesta janela é operacionalmente mais fácil do que o teria sido há 5 anos.

A segunda é de contacto institucional. Irene Tinagli, como presidente da HOUS, é um interlocutor europeu relevante para a Fundação Âncora no médio prazo. Não para apresentação formal imediata (o grau de maturidade da Fundação não justifica), mas como relação a cultivar via intermediários: Housing Europe (que dialoga directamente com a HOUS), o representante português João Oliveira, ou através da Comissão Europeia.

A terceira é de oportunidade narrativa. O diagnóstico convergente, PE fala em "crise severa", OCDE fala em "missing middle", Comissão Europeia fala em "desafio sistémico", reforça a tese da Fundação: existe um vazio estrutural entre o Estado (que chega apenas aos 2%) e o mercado (que serve apenas quem pode pagar). Qualquer documento da Fundação dirigido a autarcas, financiadores ou Estado pode agora ancorar-se nestes três diagnósticos institucionais convergentes.

A recomendação da missão, continuar o investimento quando os fundos do PRR terminarem, é precisamente o argumento estrutural para veículos como o fundo rotativo recomendado pela OCDE: assegurar continuidade do investimento em habitação acessível para além do calendário do PRR, via capital reinvestido em ciclo perpétuo.

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Fontes

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