# SROI habitacional: o retorno social que Portugal não mede

**Acontecimento:** 26 de junho de 2026 · **Publicado no Radar:** 27 de junho de 2026
**Categoria:** Dados e Estudos
**País:** Portugal, Reino Unido, Áustria, Finlândia
**Cidade:** Lisboa
**Organizações:** hact, IHRU, Comissão Europeia
**Tags:** sroi, retorno-social, valor-social, cost-rent, 1o-direito, investimento-impacto

**URL canónica:** https://radar.fundacaoancora.pt/entradas/sroi-habitacional-retorno-social/

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## O que aconteceu

A Fundação Âncora disponibilizou, em junho de 2026, um documento de trabalho (working paper) e uma calculadora aberta sobre o retorno social do investimento, o SROI (Social Return on Investment), aplicado à habitação acessível. O SROI é uma variante da análise custo-benefício, formalizada no guia oficial britânico do Cabinet Office (2009, atualizado em 2012), que traduz em dinheiro os resultados sociais e os compara com o investimento, num rácio de valor presente sobre o investimento.

O documento mapeia o estado da arte. O Reino Unido é o ecossistema mais maduro: através do HACT, as associações de habitação britânicas reportaram cerca de 1,19 mil milhões de libras de valor social em 2025 (HACT, 2025). A evidência empírica mais robusta vem dos programas Housing First (primeiro a casa, com apoio associado), dirigidos a populações sem-abrigo, onde existem ensaios aleatorizados: na Finlândia, as avaliações estimam poupanças entre cerca de 9.600 e 15.000 euros por pessoa por ano em serviços públicos, com um valor medido de cerca de 10.300 euros num estudo do Ministério do Ambiente (Governo da Finlândia, 2013); no Canadá, análises SROI de habitação de apoio reportam 3 a 5 dólares de valor por cada dólar investido (BC Housing, 2018).

O contraste com Portugal é o ponto central: segundo o levantamento do documento, não há registo público de um SROI habitacional calculado no país, e os Títulos de Impacto Social não cobriram, até à data, a área da habitação.

<p class="destaque">Como regista o documento de trabalho, <em>"investem-se milhares de milhões em habitação pública em Portugal sem que se meça o seu retorno social"</em>.</p>

## O que significa para o ecossistema

A lacuna é cara. O esforço público de habitação acessível, ancorado no 1.º Direito e na sua componente do PRR, mobiliza um envelope global da ordem de 4,2 mil milhões de euros (cerca de 59 mil soluções habitacionais, somando Orçamento do Estado e PRR), mas não tem qualquer avaliação de retorno social publicada (GOVCOPP, Universidade de Aveiro, 2025). O país investe sem medir o que esse investimento devolve à sociedade.

O momento europeu torna a omissão mais visível. O primeiro Plano Europeu para a Habitação Acessível (Comissão Europeia, dezembro de 2025) estima a necessidade de mais de dois milhões de fogos novos por ano até 2035, com um investimento adicional da ordem de 150 mil milhões de euros anuais. Quando o capital escasseia e compete, demonstrar o retorno social de cada euro deixa de ser um exercício académico e passa a ser uma condição de financiamento.

A peça serve três públicos. Para os financiadores institucionais, oferece uma linguagem internacionalmente reconhecida para o valor social, ao lado da [dívida de impacto](/entradas/european-affordable-housing-plan/). Para o Governo e o IHRU, propõe um método replicável para avaliar programas como o [1.º Direito e a componente habitação do PRR](/entradas/prr-habitacao-execucao-17-mil-casas/). E para os municípios, que executam o 1.º Direito no terreno e detêm o solo, dá um instrumento para fundamentar candidaturas e parcerias com números de retorno social, e não só de custo, ao [decidir onde construir](/entradas/municipios-habitacao-permanentemente-acessivel/). Portugal tem os dados fiscais (preços do Serviço Nacional de Saúde, prestações sociais, rendas medianas do INE) mas ainda não um banco de valores de bem-estar próprio.

## Observação a partir da Fundação Âncora

O documento sustenta uma tese metodológica com consequências práticas: num modelo de renda pelo custo, o valor social é dominado pelo excedente do consumidor, ou seja, pela poupança de renda dos residentes face ao mercado. Por isso o resultado depende sobretudo de duas escolhas, o mercado de referência e o horizonte, e a [intransacionabilidade](/entradas/acessibilidade-permanente-vs-prazo/) é o que justifica olhar a décadas: o valor persiste porque o fogo nunca sai do parque acessível. É a mesma lógica do solo público em [direito de superfície](/entradas/austria-wgg-ervo-grvo-habitacao-lucro-controlado/) e da [renda de cobertura de custos](/entradas/austria-cost-rent-revolving-fund-mecanica-renda/) que a evidência austríaca valida.

Os números do documento são ilustrativos e por intervalo, não promessas, e distinguem-se da evidência de Housing First acima, de motor diferente (a poupança em serviços públicos para populações sem-abrigo). Um exemplo torna a tese tangível: o documento modela um cluster no centro de Lisboa com renda de cobertura de custos de 16 euros por metro quadrado por mês, contra um pressuposto de mercado de 28 a 32 euros por metro quadrado para fogo novo de qualidade equivalente no centro, um segmento premium bem acima da renda mediana de toda a Grande Lisboa (13,06 euros por metro quadrado em 2024, segundo o INE). Com este pressuposto, o valor social aproxima-se ou ultrapassa a paridade com o investimento ao fim de 35 anos; com mercados de referência mais baixos, fica abaixo. A paridade exige um diferencial de renda alto, não só um horizonte longo, o que liga o trabalho à [geografia do mecanismo](/entradas/geografia-habitacao-mecanismo-localizacao/) e à [propriedade por defeito](/entradas/propriedade-por-defeito/). Medir é o primeiro passo para escolher onde construir.

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## Fontes


- **SROI Habitacional: o retorno social do investimento em habitação acessível (working paper)** — Fundação Âncora (junho de 2026)
  https://link.fundacaoancora.pt/doc/sroi-habitacional/paper

- **SROI Habitacional: calculadora aberta (folha de cálculo)** — Fundação Âncora (junho de 2026)
  https://link.fundacaoancora.pt/doc/sroi-habitacional/calculadora

- **A guide to Social Return on Investment** — Cabinet Office / SROI Network (2009, atualizado 2012)
  https://www.socialvalueint.org/guide-to-sroi

- **Social Value in Social Housing 2025** — HACT (2025)
  https://hact.org.uk/publications/social-value-in-social-housing-2025-an-annual-review-of-trends-measurement-and-impact-across-the-social-housing-sector/

- **Asunto ensin -yksiköiden kustannusvaikuttavuus (custo-eficácia das unidades Housing First)** — Governo da Finlândia, Ministério do Ambiente (2013)
  https://valtioneuvosto.fi/-/tutkimus-asunnottomuuden-kustannukset-kuriin-asuntoja-ja-tukea-tarjoamalla

- **The Social and Economic Value of Scattered-Site Supportive Housing in B.C. (SROI Analysis)** — BC Housing (2018)
  https://research-library.bchousing.org/Home/ResearchItemDetails/1667

- **Habitação: Desafios de execução do programa 1.º Direito (policy brief)** — GOVCOPP, Universidade de Aveiro (2025)
  https://govcopp.ua.pt/sites/default/files/2025-04/1DTO.pdf

- **European Affordable Housing Plan** — Comissão Europeia (dezembro de 2025)
  https://housing.ec.europa.eu/european-affordable-housing-plan_en

- **Estatísticas de Rendas da Habitação ao nível local, 4.º trimestre de 2024 (apuramentos anuais)** — INE (2025)
  https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&amp;xpgid=ine_destaques&amp;DESTAQUESdest_boui=645844109&amp;DESTAQUESmodo=2&amp;xlang=pt


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*Esta entrada faz parte do Radar Âncora, repositório editorial mantido pela Fundação Âncora (https://fundacaoancora.pt). Conteúdo publicado em português europeu, factual e referenciado. Pode ser citado livremente com atribuição à Fundação Âncora e ligação à URL canónica acima.*
