# JRC: Portugal com 177 mil casas em falta até 2035 e renovação profunda a 0,7% ao ano

**Acontecimento:** 16 de dezembro de 2025 · **Publicado no Radar:** 9 de maio de 2026
**Categoria:** Dados e Estudos
**País:** Portugal, União Europeia
**Organizações:** JRC — Joint Research Centre (Comissão Europeia), Comissão Europeia, DGEG — Direção-Geral de Energia e Geologia, INE — Instituto Nacional de Estatística, ADENE — Agência para a Energia
**Tags:** defice-habitacional, parque-edificado, eficiencia-energetica, renovacao-profunda, epbd, jrc, janus-b, censos-2021

**URL canónica:** https://radar.fundacaoancora.pt/entradas/jrc-parque-habitacional-portugal/

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## O que aconteceu

A 16 de dezembro de 2025, em conjunto com a apresentação do [European Affordable Housing Plan](/entradas/european-affordable-housing-plan/), a Comissão Europeia publicou o *Science for Policy Brief* JRC144703, *[Housing investment needs in the EU](https://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/JRC144703)*, da autoria de Balouktsi, Joossens, Le Blanc, Pagano e Zeugner. O brief estima necessidades de investimento habitacional ao nível das regiões NUTS 3 da União Europeia até 2035, com uma metodologia que combina projeções demográficas do Eurostat, dados do *Census* 2011 e 2021, e a base ECFIN-JRC *mapadomo*.

A nível europeu, o JRC documenta a necessidade de mais 7,14 milhões de fogos para 2035, equivalentes a um *gap* de investimento de €1,68 biliões a preços de 2024, ou €153 mil milhões anuais. A composição do número combina três blocos: 4,57 milhões correspondem ao *shortfall* acumulado de subconstrução em regiões com défice entre 2010 e 2024; 4,77 milhões à variação demográfica projetada em regiões com expectativa de défice; e 0,75 milhões à amortização do parque. Subtraindo a construção esperada de 2,95 milhões nas mesmas regiões, chega-se ao *gap* de 7,14 milhões.

Para Portugal, [como reportou o Jornal de Negócios em 9 de janeiro de 2026](https://www.jornaldenegocios.pt/economia/habitacao/detalhe/portugal-precisa-de-mais-180-mil-casas-na-proxima-decada) com base nos dados regionais da *mapadomo*, são necessários 176,6 mil fogos adicionais aos 289 mil já esperados pelo ritmo histórico de construção, totalizando cerca de **465 mil fogos por concluir até 2035**, equivalentes a perto de 12% do parque permanente atual. Mais de dois terços desta necessidade concentra-se nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, com cerca de 124 mil fogos. As estimativas para o conjunto da União, segundo o JRC, classificam Portugal entre os países com pressão sustentada apesar de não estar entre os quatro maiores défices absolutos (Alemanha, França, Itália, Espanha, que concentram dois terços do investimento total europeu).

<div class="numero-chave">
  <span class="numero-chave-valor">465 000</span>
  <span class="numero-chave-contexto">fogos a concluir em Portugal até 2035 segundo o JRC, dos quais 176,6 mil adicionais ao ritmo histórico</span>
</div>

A leitura quantitativa do JRC ganha densidade quando confrontada com duas fontes nacionais publicadas em 2025. O modelo *[JANUS B — Um Modelo do Stock Residencial Português](https://www.dgeg.gov.pt/media/5nhceixi/janus-b-modelo-do-stock-de-resid%C3%AAncias-nacional-2025.pdf)*, divulgado pela DGEG a 9 de setembro de 2025 como décimo estudo da série *Estudos do Sistema Energético Português*, calibra a evolução do parque residencial permanente em onze coortes do *Census* 2021 do INE. O ponto de partida é um *stock* de 3 962 718 residências permanentemente ocupadas no período 2021-2025. O modelo quantifica que a taxa atual de renovação profunda é de 0,7% ao ano e a de renovação parcial 1,0% ao ano. O autor reconhece explicitamente que *"existe um certo nível de pobreza energética"* nas coortes anteriores a 2025, traduzida num *mix* virtual de equipamentos de aquecimento que não soma 100%.

A 7.ª edição da publicação anual *[Energia em Números 2025](https://cdn.adene.pt/energiaemnumeros/Energia_em_numeros_2025.pdf)*, da ADENE e DGEG, contabiliza mais de 2,9 milhões de certificados energéticos emitidos pelo Sistema de Certificação Energética dos Edifícios desde 2008, e estima que o setor residencial tem **potencial de poupança energética de 62%**, com um investimento médio por fogo de €8 493 e um período de retorno de oito anos.

O calendário regulatório europeu fecha o quadro. A *[Diretiva (UE) 2024/1275 do Parlamento Europeu e do Conselho](https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX:32024L1275)*, conhecida como EPBD reformulada, foi publicada no Jornal Oficial da União Europeia a 8 de maio de 2024. Para edifícios residenciais, a diretiva exige aos Estados-Membros redução do consumo de energia primária do parque de pelo menos 16% até 2030, e entre 20% e 22% até 2035. A escala de classes energéticas dos certificados é igualmente redefinida: a classe A passa a corresponder a edifícios de emissões zero, e a classe G aos menos eficientes. **O prazo de transposição da diretiva para a ordem jurídica nacional é 29 de maio de 2026.**

## O que significa para o ecossistema

Três sinais relevantes.

Primeiro, **o parque habitacional português é simultaneamente insuficiente, degradado e ineficiente**, e os três défices reforçam-se mutuamente. Em quantidade, o JRC documenta a necessidade de 465 mil fogos até 2035, alinhado com o gap estrutural de 14 mil fogos por ano calculado pelo [Banco de Portugal no Boletim Económico de março](/entradas/banco-de-portugal-acessibilidade-habitacao/). Em qualidade, o INE registou no *Census* 2021 que apenas 64,2% dos edifícios não necessitavam de reparações, e os dados Eurostat EU-SILC de 2020 classificam Portugal em 25,2% da população residente em alojamentos com infiltrações, humidade ou problemas estruturais, segunda pior posição da União Europeia nesse ano. Em eficiência energética, o JANUS B quantifica em 0,7% ao ano a renovação profunda do parque. Construir mais sem renovar o existente não fecha o problema; renovar o existente sem construir novo não acompanha a procura. As três respostas são simultâneas.

Segundo, **as duas grandes metrópoles concentram a pressão, mas o problema não é só metropolitano**. O JRC identifica 70% das necessidades portuguesas em Lisboa e Porto. Mas o Banco de Portugal documentou agravamento transversal da acessibilidade em todo o território, a [CIMAA Alto Alentejo aprovou 5,46 milhões para habitação acessível](/entradas/cimaa-alto-alentejo-habitacao-acessivel/) em zona não metropolitana, e o JANUS B mostra que a maioria do *stock* nacional, mais de três milhões de residências, fica fora dos eixos de Lisboa e Porto. Qualquer arquitetura de resposta tem de ter geometria nacional, com instrumentos diferenciados para áreas metropolitanas, cidades médias e zonas rurais.

Terceiro, **o calendário regulatório europeu cria um relógio que torna a inação custosa**. A transposição da Diretiva 2024/1275 termina a 29 de maio de 2026. A meta de redução de consumo de energia primária do parque residencial em 16% até 2030 implica uma vaga de renovação de larga escala, de instalação de bombas de calor, de envolventes melhoradas, de solar fotovoltaico distribuído. À taxa atual de 0,7% por ano de renovação profunda, e 1,0% de renovação parcial, o cenário-objetivo de 75% do *stock* dominado por residências eficientes em 2050 do JANUS B exige acelerar para um pico superior a 125 mil renovações parciais por ano no quinquénio 2041-2045. Os instrumentos financeiros estão sequencialmente alinhados: o [Banco Europeu de Investimento duplicou o seu financiamento à habitação](/entradas/bei-duplica-financiamento-habitacao/), a Comissão Europeia lançou a [Pan-European Investment Platform](/entradas/pan-european-investment-platform-habitacao/), e os [seis aceleradores energia-habitação apresentados em Guimarães](/entradas/housing-europe-energy-cities-ebc-guimaraes/) por Housing Europe, Energy Cities e EBC explicitam o desenho operacional. O que está em discussão a partir do segundo semestre de 2026 é como o *capital* europeu se canaliza, em Portugal, em projetos concretos.

## Observação a partir da Fundação Âncora

Três leituras a partir da Fundação Âncora.

A primeira é de coerência metodológica. As três fontes citadas, o JRC para a quantidade, o JANUS B para a renovação, o EPBD para a regulação, são produzidas por instituições com mandatos técnicos distintos, e convergem para o mesmo diagnóstico: o parque permanente português precisa de capital com horizonte longo, calendário previsível e disciplina operacional para responder em simultâneo à necessidade quantitativa, à qualidade construtiva e à eficiência energética. Modelos europeus que atravessaram este tipo de ciclo, [Áustria via WGG e ERVO](/entradas/austria-wgg-ervo-grvo-habitacao-lucro-controlado/), Países Baixos via *woningcorporaties*, Finlândia via Y-Foundation, operam com três elementos comuns: capital paciente em camadas, regras vinculativas que tornam o parque não-transacionável, e renda indexada ao custo que internaliza o investimento em manutenção e em desempenho energético, em vez de o externalizar para o residente. [O WIFO documentou recentemente o impacto económico líquido positivo](/entradas/austria-wifo-impacto-economico-lucro-limitado/) deste arranjo na Áustria; [a mecânica do *cost-rent* austríaco está descrita em entrada anterior do Radar](/entradas/austria-cost-rent-revolving-fund-mecanica-renda/).

A segunda é de economia da reabilitação. Em segmentos relevantes do parque urbano, e em particular nos centros históricos com estrutura gaioleira ou pombalina, a reabilitação profunda custa por metro quadrado mais do que a construção nova: dados de referência de 2022 [recolhidos pela AC Arquitetos](https://www.ac-arquitetos.com/post/custos-padrao-na-reabilitacao-quanto-custa-reabilitar-por-metro-quadrado) apontam para 1 725 €/m² em reabilitação face a 1 412 €/m² em construção nova, com o diferencial explicado por avaliações sísmicas obrigatórias, imprevistos estruturais e custos de estaleiro em meio urbano denso. Esta diferença, descontado o tempo, paga-se em duas dimensões: na poupança energética operacional ao longo do horizonte centenário do edifício, e no valor patrimonial preservado num parque urbano que é, em larga medida, irreplicável. Mas o perfil de retorno é incompatível com capital que sai em cinco a sete anos. **Sem capital paciente, a reabilitação profunda do tecido urbano consolidado não fecha as contas.**

A terceira é de calendário. As metas EPBD de 2030 e 2035, e o cenário-objetivo do JANUS B para 2050, exigem que as decisões estruturais de financiamento, regulação e operadores de longo prazo se tomem ao longo dos próximos vinte e quatro meses. Os instrumentos europeus estão alinhados, o quadro regulatório está fixado, o diagnóstico técnico está consolidado em três instituições independentes. O que ainda não está colocado é a arquitetura nacional que articule os três défices num programa coerente de operadores permanentes — com o capital, a regra contratual e o operador a chegarem ao mesmo edifício no mesmo momento. A transposição da Diretiva 2024/1275, prevista até 29 de maio de 2026, e a execução das verbas europeias mobilizadas no [Plano Europeu de Habitação Acessível](/entradas/european-affordable-housing-plan/) e no [BEI](/entradas/bei-duplica-financiamento-habitacao/) ao longo de 2026 e 2027, definem juntos a janela em que essa arquitetura tem de se materializar. *Permanência por desenho.*

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## Fontes


- **Housing investment needs in the EU — Science for Policy Brief, JRC144703** — Joint Research Centre, Comissão Europeia (Dezembro de 2025)
  https://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/JRC144703

- **Housing in the EU: more than 2 million new homes per year needed by 2035 to meet demand** — Joint Research Centre, Comissão Europeia (16 de dezembro de 2025)
  https://joint-research-centre.ec.europa.eu/jrc-news-and-updates/housing-eu-more-2-million-new-homes-year-needed-2035-meet-demand-2025-12-16_en

- **JANUS B — Um Modelo do Stock Residencial Português, Estudos do Sistema Energético Português n.º 10** — Direção-Geral de Energia e Geologia (9 de setembro de 2025)
  https://www.dgeg.gov.pt/media/5nhceixi/janus-b-modelo-do-stock-de-resid%C3%AAncias-nacional-2025.pdf

- **Diretiva (UE) 2024/1275 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 24 de abril de 2024, relativa ao desempenho energético dos edifícios (reformulação)** — Jornal Oficial da União Europeia (8 de maio de 2024)
  https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX:32024L1275

- **Energia em Números, edição 2025** — ADENE e DGEG (30 de maio de 2025)
  https://cdn.adene.pt/energiaemnumeros/Energia_em_numeros_2025.pdf

- **Portugal precisa de mais 180 mil casas na próxima década** — Jornal de Negócios (9 de janeiro de 2026)
  https://www.jornaldenegocios.pt/economia/habitacao/detalhe/portugal-precisa-de-mais-180-mil-casas-na-proxima-decada

- **Custos-Padrão na Reabilitação: Quanto custa reabilitar por metro quadrado?** — AC Arquitetos (2022)
  https://www.ac-arquitetos.com/post/custos-padrao-na-reabilitacao-quanto-custa-reabilitar-por-metro-quadrado


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*Esta entrada faz parte do Radar Âncora, repositório editorial mantido pela Fundação Âncora (https://fundacaoancora.pt). Conteúdo publicado em português europeu, factual e referenciado. Pode ser citado livremente com atribuição à Fundação Âncora e ligação à URL canónica acima.*
