# Housing Europe: Portugal tem 2 por cento de parque público, terceiro pior da UE

**Acontecimento:** 15 de outubro de 2025 · **Publicado no Radar:** 22 de outubro de 2025
**Categoria:** Dados e Estudos
**País:** Portugal, União Europeia
**Organizações:** Housing Europe
**Tags:** state-of-housing, housing-europe, terceiro-sector, parque-publico, censos-2021, missing-middle, paises-baixos, austria, dinamarca

**URL canónica:** https://radar.fundacaoancora.pt/entradas/housing-europe-state-of-housing-portugal/

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## O que aconteceu

A 15 de outubro de 2025, a Housing Europe, federação europeia que representa mais de 43 mil operadores de habitação pública, cooperativa e social, publicou a edição 2025 do relatório anual The State of Housing in the EU. A publicação inclui capítulos nacionais dedicados, entre os quais Portugal.

Os dados consolidados para Portugal, compilados a partir dos Censos 2021 do INE e de relatórios do IHRU, apresentam o retrato estrutural do parque habitacional português. O total de alojamentos convencionais no país é de 5.970.677. As residências primárias são 4.143.043, distribuídas em três regimes: propriedade ocupada pelo próprio (2.900.391 fogos, 70 por cento), arrendamento (922.921, 22,3 por cento) e outros regimes (319.731, 7,7 por cento).

O dado mais relevante para efeitos de comparação europeia é o número de habitações detidas por entidades públicas ou sem fins lucrativos: 123.053 fogos, cerca de 2 por cento do parque habitacional total e aproximadamente 3 por cento das residências primárias. O perímetro inclui habitação gerida pelo IHRU, pelas autarquias e pelas poucas cooperativas em arrendamento permanente.

<p class="destaque">O contraste europeu é estrutural. Nos Países Baixos, o sector não lucrativo representa 34 por cento do parque habitacional. Na Áustria, 24 por cento. Na Dinamarca, 21 por cento. Em França, as habitações sociais representam cerca de 17 por cento do parque e quase 30 por cento dos arranques habitacionais em 2024.</p>

O relatório global identifica três tendências transversais no continente. Listas de espera para habitação social a crescer (cerca de 2,8 milhões em França, centenas de milhares em Itália, Portugal e nas áreas urbanas alemãs). Construção residencial a atingir mínimo de uma década em 2025, com custos elevados e financiamento restritivo a condicionar tanto nova construção como reabilitação energética. E o papel contracíclico dos operadores públicos, cooperativos e sociais, cuja produção se mantém estável mesmo quando o sector privado recua.

Em 2024, segundo dados consolidados pela Housing Europe, as housing associations neerlandesas foram responsáveis por um terço de todas as conclusões habitacionais nos Países Baixos. Em França, o sector social representou quase 30 por cento dos housing starts. Na Áustria, as LPHAs continuaram a construir uma em cada quatro novas habitações. Na Finlândia, as empresas municipais de habitação produziram 20 por cento da nova oferta. Na Suécia, o sector público e cooperativo construiu cerca de 25 por cento dos novos fogos. Na Eslovénia, o orçamento público para habitação foi multiplicado por quatro em 2025.

Para Portugal, a Housing Europe confirma que existem aproximadamente 130.000 famílias em condições habitacionais inadequadas, concentradas nas áreas metropolitanas de Lisboa, Porto e Algarve. Não há dados centralizados sobre listas de espera para habitação social, uma lacuna estatística que o relatório assinala como limitação na análise comparada.

## O que significa para o ecossistema

Três leituras relevantes.

A primeira é sobre a magnitude do défice institucional português. Os 2 por cento de parque não lucrativo colocam Portugal, em comparação europeia, no grupo de países mais dependentes do mercado privado para satisfazer a procura habitacional. A diferença entre 2 por cento e 24 por cento (Áustria) ou 34 por cento (Países Baixos) não é de grau, é de natureza. Significa que o mercado privado português opera sem o mecanismo amortecedor que noutros países mantém os preços ancorados pela oferta não especulativa.

A segunda é sobre o papel contracíclico. O relatório documenta que, em 2024 e 2025, enquanto o sector privado reduziu construção face à subida de custos e às condições de financiamento, os operadores sem fins lucrativos mantiveram produção estável. Este é o argumento técnico mais forte a favor de um sector de terceiro setor habitacional robusto: não substitui o mercado, complementa-o com resiliência em momentos de contracção. Em Portugal, este amortecedor é, na prática, inexistente.

A terceira é sobre lacunas estatísticas. O relatório assinala correctamente que Portugal não tem dados centralizados sobre listas de espera para habitação social. Sem dados de procura desagregada por município, tipologia e perfil socioeconómico, nenhum operador, público ou privado, pode calibrar correctamente a oferta. Esta é uma reforma de base que qualquer estratégia habitacional séria tem de incluir.

## Observação a partir da Fundação Âncora

Três leituras directas para a Fundação Âncora.

A primeira é de posicionamento estratégico. A Fundação Âncora existe precisamente para começar a preencher o vazio institucional que o relatório Housing Europe documenta. Os 2 por cento actuais são um ponto de partida, não um ponto terminal. A ambição da Fundação, criar stock habitacional permanente fora do mercado especulativo, é exactamente o movimento que Portugal precisa fazer. O valor acrescentado da Fundação está na velocidade e escala que traz à execução, não na originalidade conceptual.

A segunda é narrativa. Quando a Fundação Âncora explica o seu modelo a interlocutores portugueses, a referência ao relatório é útil. Os números 2 por cento contra 24 por cento (Áustria) contra 34 por cento (Países Baixos) são directos e factuais, sem margem para disputa política. Permitem enquadrar a Fundação não como projecto ideológico mas como resposta técnica ao défice documentado.

A terceira é operacional. O relatório confirma que Portugal não tem dados centralizados sobre listas de espera. Esta lacuna é simultaneamente um problema e uma oportunidade. Problema, porque dificulta a calibração inicial da oferta. Oportunidade, porque o Observatório Âncora, a unidade de investigação planeada pela Fundação em parceria com universidades, pode começar a produzir os dados que o sistema estatístico nacional ainda não produz. Esta é uma contribuição de valor público que a Fundação pode fazer desde o primeiro ano, com custo marginal reduzido e impacto institucional elevado.

O Radar acompanhará as próximas publicações da Housing Europe, em particular o Affordable Housing Monitor previsto para 2026 e os relatórios temáticos sobre financiamento, regulação e construção que a federação publica regularmente.

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## Fontes


- **The State of Housing in the EU 2025 — Portugal chapter** — Housing Europe (15 de outubro de 2025)
  https://www.housingeurope.eu/wp-content/uploads/2025/10/portugal_the_state_of_housing_in_the_eu_2025_digital.pdf

- **State of Housing in Europe 2025 — Trends in a nutshell** — Housing Europe (15 de outubro de 2025)
  https://www.housingeurope.eu/state-of-housing-in-europe-2025-trends-in-a-nutshell/

- **Data Finds European Countries Are Also Facing Housing Supply Challenges** — NAHRO (National Association of Housing and Redevelopment Officials) (21 de outubro de 2025)
  https://www.nahro.org/news/data-finds-european-countries-are-also-facing-housing-supply-challenges/


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*Esta entrada faz parte do Radar Âncora, repositório editorial mantido pela Fundação Âncora (https://fundacaoancora.pt). Conteúdo publicado em português europeu, factual e referenciado. Pode ser citado livremente com atribuição à Fundação Âncora e ligação à URL canónica acima.*
