# Como resolver a crise da habitação: o FT defende desregulação e Estado em simultâneo

**Acontecimento:** 18 de julho de 2026 · **Publicado no Radar:** 18 de julho de 2026
**Categoria:** Dados e Estudos
**País:** Internacional, Reino Unido, Irlanda, Estados Unidos, Nova Zelândia, Áustria, Finlândia, Portugal
**Cidade:** Londres, Dublin, Viena, Helsínquia
**Organizações:** Financial Times
**Público:** Legislador e regulador, Municípios, Academia e investigação
**Tags:** elasticidade-da-oferta, supply-skepticism, controlo-de-rendas, defice-habitacional, precos-habitacao, comparacao-internacional, yimby, parque-publico, cost-rent

**URL canónica:** https://radar.fundacaoancora.pt/entradas/ft-como-resolver-crise-habitacao/

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## O que aconteceu

A 18 de julho de 2026, o Financial Times publicou um Big Read de John Burn-Murdoch — o analista-chefe de dados do jornal — dedicado a uma pergunta que atravessa o mundo desenvolvido: como se resolve a crise da habitação? A tese está no subtítulo: *"Deregulation isn't enough. Nor is government intervention. We need both"* — a desregulação não chega, a intervenção do Estado também não; são precisas as duas. A peça sai num momento político preciso: Andy Burnham, que segundo o FT tomará posse como primeiro-ministro britânico na segunda-feira seguinte, promete o maior programa de habitação construída pelo Estado desde o pós-guerra, e o presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, defende controlos de renda.

O artigo começa pelo diagnóstico. A procura de casas cresce mesmo onde a população não cresce — vidas mais longas, menos casamentos, menos agregados multigeracionais — e concentra-se nas cidades-superstar, de São Francisco a Lisboa. O caso extremo é Dublin: a procura habitacional subiu 40 por cento desde 2011, o parque cresceu a metade desse ritmo, as rendas mais do que duplicaram numa década e a percentagem de jovens irlandeses dos 25 aos 34 anos a viver com os pais passou de 19 para 42 por cento entre 2013 e 2024. E o fardo é regressivo: no terço mais pobre dos jovens adultos, viver com os pais atinge hoje 75 por cento em Dublin e São Francisco e 55 por cento em Londres.

Sobre as respostas que atacam o preço sem atacar a escassez, o economista Ronan Lyons (Trinity College Dublin) resume ao FT: *"os controlos de renda aliviam a pressão para quem já tem casa, mas não alojam quem não tem — gerem o impacto da escassez, não a resolvem, e podem até agravá-la"*. Burn-Murdoch acrescenta dois exemplos de boas intenções contraproducentes: a lei federal americana da semana anterior, que restringe os senhorios corporativos que a investigação mostra facilitarem o acesso de famílias de menor rendimento a bairros de oportunidade, e as sobretaxas que secaram o investimento estrangeiro que financiava grandes empreendimentos de arrendamento em Londres, documentado pela London School of Economics.

Segue-se a evidência sobre construir mais. O artigo reconhece o contraditório — dois estudos recentes dos EUA, [um deles já lido pelo Radar](/entradas/fed-sf-rics-bird-oferta-capital-acessibilidade/), não encontram relação consistente entre restrições urbanísticas e resposta da oferta — mas contrapõe casos documentados onde a liberalização produziu resultados. Em Auckland, o Unitary Plan de 2016 abriu cerca de três quartos do solo residencial a densidades maiores: os licenciamentos de casas em banda e apartamentos em zonas rezonadas passaram de menos de mil para perto de dez mil por ano em cinco anos, segundo o estudo de referência no *Journal of Urban Economics*, e as rendas reais ficaram estáveis enquanto em Wellington, sem reforma equivalente, subiam mais de 40 por cento em termos nominais. O trabalho que fecha o caso foi publicado uma semana antes do Big Read: na *Economic Inquiry*, Ryan Greenaway-McGrevy e Yun So estimam que, oito anos depois da reforma, as rendas de Auckland estão 23 por cento abaixo do que estariam sem ela. Em Austin — a cidade mais permissiva do «Sunbelt» americano, que aboliu os mínimos de estacionamento e cortou o lote mínimo de 5.750 para 1.800 pés quadrados — o parque cresceu 30 por cento em dez anos e a renda mediana caiu, em termos nominais, de 1.546 dólares no fim de 2021 para 1.296 em janeiro de 2026, segundo a Pew, com as maiores reduções nos edifícios mais antigos e baratos — antes de a própria construção cair para o mínimo de 15 anos que o FT regista, quando os promotores travaram para estancar a queda.

<p class="destaque">O contraponto são as cidades onde construir se tornou economicamente inviável. Em Londres — onde as regras de segurança pós-Grenfell, os requisitos de desenho e os encargos acumulados encareceram cada projeto — a construção nova caiu para menos de um fogo por 1.000 habitantes: o nível mais baixo de qualquer grande cidade do mundo desenvolvido, segundo a análise do FT. Em Londres e Dublin há hoje grandes volumes de projetos licenciados e parados, porque concluí-los às regras atuais significaria vender com prejuízo.</p>

Dois casos britânicos fecham o argumento da durabilidade política. Croydon, em Londres, emitiu em 2018 uma permissão geral para converter moradias unifamiliares em pequenos prédios de apartamentos: as conversões multiplicaram-se no subúrbio de Purley, somando centenas de fogos a preços comportáveis para um rendimento londrino típico — e a política foi revogada quatro anos depois, após uma eleição local disputada em torno dela. Manchester, pelo contrário, passou anos a construir consenso e concentrou as torres em terrenos industriais devolutos: construiu mais habitação por habitante do que qualquer grande cidade britânica desde 2016 e as rendas em percentagem do rendimento local subiram menos do que em Glasgow, Bristol ou Cardiff — embora o FT registe que, mesmo assim, a acessibilidade piorou para os residentes mais pobres, porque a escassez herdada era demasiado profunda.

É aí que o artigo chega à sua conclusão. Citando Viena e Helsínquia — que evitaram durante décadas os problemas das cidades-superstar não só com grandes setores sociais, mas construindo **mais habitação privada** do que Londres: 10,4 fogos novos por 1.000 habitantes em Helsínquia e 7,5 em Viena, contra 3,9 em Londres, somando social e privado — Burn-Murdoch nota que a mesma regulação mais leve que ajuda o privado baixa também o custo da habitação pública. E fecha com Ingrid Gould Ellen (New York University): *"garantir que a regulação permite construir é crítico, mas a habitação nova a preços de mercado, sozinha, não chega para responder às necessidades dos agregados de muito baixo rendimento"*. Desregulação e intervenção do Estado, em simultâneo.

## O que significa para o ecossistema

Três leituras para o ecossistema português.

A primeira é a maturação do debate. O FT — dificilmente acusável de hostilidade ao mercado — escreve preto no branco que o privado não chega; e a evidência que cita contra os atalhos regulatórios é a mesma que o Radar tem lido: [a avaliação da Nova SBE e da Gulbenkian classificou o controlo de rendas como ineficaz](/entradas/nova-sbe-gulbenkian-avaliacao-mais-habitacao/) e [o subsídio à renda em mercado rígido é largamente capturado pelos senhorios](/entradas/subsidios-renda-captura-senhorios/). A novidade está na simetria: os mesmos dados que desmontam os controlos desmontam a fé de que baste desregular. É a saída do falso dilema em que o debate português também esteve preso — proteger inquilinos *ou* libertar a construção — para a pergunta operacional: que combinação, em que territórios.

A segunda é que «as cidades onde construir se tornou demasiado caro» são um espelho útil para Portugal. O Banco de Portugal já mostrou que [a prestação da casa mediana consome 48 por cento do rendimento mediano e que 104 municípios têm taxas de esforço teóricas acima de 40 por cento](/entradas/banco-de-portugal-acessibilidade-habitacao/), e estimou em cerca de 300 mil fogos o défice acumulado da última década — assinalando, no Boletim Económico de junho, que 2025 foi o primeiro ano em onze em que a nova oferta acompanhou a formação de famílias, com o licenciamento em máximos desde 2011 (48.844 fogos, segundo o INE) mas as conclusões ainda nos 30 mil. Do lado das regras, o país acaba de mexer precisamente na alavanca que o FT identifica: [o novo RJUE substituiu o controlo prévio pela comunicação prévia com responsabilização do promotor](/entradas/dl-108-2026-rjue-comunicacao-previa-cedencias/), com entrada em vigor a 3 de agosto. A lição de Croydon e Manchester aplica-se por inteiro: a liberalização que dura é a que se negoceia com quem já lá vive e se concentra onde a construção não disputa o quintal de ninguém — e a que se revoga ao primeiro ciclo eleitoral não chega a mover a agulha. [A sondagem Ipsos a 29 países](/entradas/ipsos-housing-monitor-apoio-construir-confianca/) mede exatamente esse défice de confiança: 63 por cento apoiam construir mais, só 32 por cento confiam que o resultado seja acessível.

A terceira é o argumento com maior alcance orçamental: a regulação mais leve baixa também o custo da habitação **pública**. Auckland volta a fornecer o número, num estudo que o FT não cita mas que fecha o argumento: depois do upzoning, a quota das instituições públicas nas novas construções subiu de 3,1 para 9,9 por cento — a mesma reforma que libertou o privado **triplicou** a construção promovida pelo Estado. Num país que [gasta pouco em habitação e tem cerca de 2 por cento de parque público](/entradas/housing-europe-state-of-housing-portugal/), e onde [a execução do PRR entregou sobretudo reabilitação e aquisição, com apenas 1.568 fogos de construção nova](/entradas/prr-habitacao-execucao-17-mil-casas/), cada euro público que os encargos, prazos e riscos de licenciamento consomem é um fogo acessível que não se constrói. O binómio do FT traduz-se, em português, numa aritmética simples: a simplificação administrativa não é a alternativa ao investimento público — é o multiplicador dele.

## Observação a partir da Fundação Âncora

O ponto de chegada de Burn-Murdoch é o ponto de partida da tradição europeia de lucro limitado. Viena e Helsínquia, os dois casos que o FT usa para mostrar que «o privado não chega», nunca foram sistemas de Estado contra mercado: são sistemas de oferta dual, onde [um setor de renda de custo com financiamento rotativo](/entradas/austria-cost-rent-revolving-fund-mecanica-renda/) e [operadores de missão como a Y-Foundation](/entradas/y-foundation-finlandia-benchmark/) coexistem com taxas de construção privada que Londres não conhece. E os dois pressupostos que o artigo identifica — regras que deixem construir, Estado que sirva quem o mercado não serve — são precisamente as duas pernas de que a renda de custo precisa: condições de construção previsíveis e solo comprável baixam o custo que a renda reflete; capital paciente e apoio público fazem o resto sem subsídio anual ao preço. O aviso final de Viena, onde o solo caro ameaça hoje a viabilidade da habitação social futura, confirma o que o Radar concluiu ao [perguntar se Oeiras poderia ser a Viena de Portugal](/entradas/oeiras-viena-de-portugal/): o fator tempo é decisivo — o solo garante-se antes de a escassez o encarecer, e a acessibilidade que se quer permanente [fixa-se no regime do imóvel, não no ciclo político](/entradas/acessibilidade-permanente-vs-prazo/). Portugal tem hoje, pela primeira vez em décadas, as duas alavancas do binómio simultaneamente em movimento — a simplificação urbanística e os instrumentos de investimento público e de longo prazo. Os elementos estão alinhados; vale acompanhar se a tradução portuguesa lhes acrescenta a peça que Viena e Helsínquia nunca dispensaram: operadores duráveis que convertem regras mais leves e capital paciente em rendas formadas pelo custo.

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## Fontes


- **How to fix the housing crisis** — Financial Times, The Big Read (John Burn-Murdoch) (18 de julho de 2026)
  https://www.ft.com/content/8c910a8f-2b8b-4234-918a-2022bdc01889

- **Can zoning reform reduce housing costs? Evidence from rents in Auckland** — Ryan Greenaway-McGrevy e Yun So, Economic Inquiry (acesso aberto CC BY 4.0) (11 de julho de 2026)
  https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ecin.70075

- **The impact of upzoning on housing construction in Auckland** — Ryan Greenaway-McGrevy e Peter C. B. Phillips, Journal of Urban Economics, vol. 136 (2023)
  https://doi.org/10.1016/j.jue.2023.103555

- **Zoning reform and state-developed housing in Auckland** — Ryan Greenaway-McGrevy, New Zealand Economic Papers, vol. 59 (2025)
  https://doi.org/10.1080/00779954.2025.2468710

- **Austin&#39;s Surge of New Housing Construction Drove Down Rents** — The Pew Charitable Trusts (18 de março de 2026)
  https://www.pew.org/en/research-and-analysis/articles/2026/03/18/austins-surge-of-new-housing-construction-drove-down-rents

- **Supply Constraints do not Explain House Price and Quantity Growth Across U.S. Cities** — Schuyler Louie, John A. Mondragon e Johannes Wieland, NBER Working Paper 33576 (Março de 2025)
  https://www.nber.org/papers/w33576

- **America&#39;s Housing Supply Problem: The Closing of the Suburban Frontier?** — Edward Glaeser e Joseph Gyourko, NBER Working Paper 33876 (Maio de 2025)
  https://www.nber.org/papers/w33876

- **The Effects of Rent Control Expansion on Tenants, Landlords, and Inequality: Evidence from San Francisco** — Rebecca Diamond, Tim McQuade e Franklin Qian, American Economic Review, 109(9) (Setembro de 2019)
  https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/aer.20181289

- **Portugal inverte défice de novas casas pela primeira vez em 11 anos (Boletim Económico do Banco de Portugal)** — ECO (16 de junho de 2026)
  https://eco.sapo.pt/2026/06/16/portugal-inverte-defice-de-novas-casas-pela-primeira-vez-em-11-anos/


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*Esta entrada faz parte do Radar Âncora, repositório editorial mantido pela Fundação Âncora (https://fundacaoancora.pt). Conteúdo publicado em português europeu, factual e referenciado. Pode ser citado livremente com atribuição à Fundação Âncora e ligação à URL canónica acima.*
