# Cooperativas 1.ª Habitação Lisboa: dois anos depois, 500 casas continuam no papel

**Acontecimento:** 2 de abril de 2026 · **Publicado no Radar:** 3 de abril de 2026
**Categoria:** Municípios
**País:** Portugal
**Cidade:** Lisboa
**Organizações:** Câmara Municipal de Lisboa
**Tags:** cooperativas-habitacao, direito-superficie, carlos-moedas, filipa-roseta, carta-municipal-habitacao, lisboa-sru, lumiar, benfica, propriedade-publica

**URL canónica:** https://radar.fundacaoancora.pt/entradas/cooperativas-1a-habitacao-lisboa-balanco/

---

## O que aconteceu

A 2 de abril de 2026, o portal Vida Imobiliária consolidou o balanço público do Programa Cooperativas 1.ª Habitação Lisboa, retomando dados que o idealista/news e o Jornal Económico haviam publicado em janeiro de 2026. O quadro é claro: o programa foi lançado em fevereiro de 2024 pela Câmara Municipal de Lisboa, sob liderança de Carlos Moedas (PSD/CDS-PP), com Filipa Roseta como vereadora da Habitação. Dois anos depois, zero habitações foram construídas.

O programa baseia-se num modelo conhecido. O município identifica terrenos municipais de pequena escala, geralmente abaixo de 50 fogos por intervenção, e cede-os em direito de superfície por 90 anos a cooperativas de habitação seleccionadas em concurso público. As cooperativas constroem e gerem habitação sem fins lucrativos, com critérios de elegibilidade que incluem limites de rendimento do agregado familiar e a inexistência de propriedade habitacional na Área Metropolitana de Lisboa à data da aquisição. Findo o prazo de 90 anos, os imóveis revertem para o município, podendo o prazo ser prorrogado conforme o interesse público.

A meta inscrita na Carta Municipal de Habitação de Lisboa 2023-2032 é de 500 habitações distribuídas por 11 intervenções em 8 freguesias: Ajuda, Arroios, Belém, Benfica, Lumiar, Marvila, São Vicente e Santa Clara. Para se preparar, o município contratou através da Lisboa Ocidental SRU a elaboração de estudos preliminares, concursos de projecto e projectos de arquitectura e especialidades para todas as intervenções. O investimento até ao início de 2026 foi de aproximadamente 1,1 milhões de euros, segundo informação prestada pela autarquia ao Jornal Económico.

Apenas dois concursos foram efectivamente abertos. O primeiro, em 2022, adjudicado em abril de 2025 à Cooperativa JHLX (Jovens Habitam Lisboa) para 18 habitações no Lumiar. O segundo, aprovado a 2 de julho de 2025 pela reunião privada do executivo municipal, para um terreno na Rua da Venezuela em Benfica destinado a 12 habitações. A vereadora Filipa Roseta indicou na altura que estavam preparadas para concretização cerca de 300 habitações cooperativas, antecipando o lançamento de novos concursos.

<p class="destaque">O programa enquadra-se no princípio de que a construção privada sem fins lucrativos pode ocorrer sob propriedade pública mantida no longo prazo, instrumento conhecido em várias tradições europeias e nomeadamente no modelo catalão da Sostre Civic, financiado pelo CEB, e no modelo vienense, ambos cobertos no Radar.</p>

A justificação oficial para o ritmo lento aponta para a ausência prévia de modelo contratual, ausência de cooperativas activas após décadas de hibernação do sector e necessidade de construir do zero o quadro técnico, jurídico e urbanístico. O movimento cooperativo habitacional, que produziu cerca de 160 mil fogos em Portugal entre o pós-25 de Abril e os anos 1990, declinou substancialmente após a década de 1990 com a facilitação do crédito bancário à habitação e a cessação de financiamento e apoio público específico, situação que se agravou após 2008.

## O que significa para o ecossistema

Três leituras directas.

A primeira é estrutural. O Programa Cooperativas 1.ª Habitação Lisboa é o precedente mais directo em Portugal do modelo que combina propriedade pública do solo, construção sem fins lucrativos, e horizonte longo. É o instrumento jurídico-financeiro mais próximo do que operadores europeus consolidados utilizam, da Sostre Civic em Catalunha às Limited-Profit Housing Associations austríacas. O facto de este programa existir formalmente em Lisboa, com Carta Municipal de Habitação aprovada e terrenos identificados, confirma que o quadro jurídico português permite este tipo de operação.

A segunda é executiva. A distância entre o anúncio e a execução é o tema que merece reflexão. Dois anos após o lançamento, com 1,1 milhões investidos em fase preparatória e zero fogos construídos, fica claro que o modelo cooperativo, tal como configurado, exige um ecossistema operacional que Portugal não tem actualmente. Cooperativas activas com capacidade técnica e financeira para gerir projectos imobiliários complexos, equipas multidisciplinares para articular concurso público, projecto, licenciamento e construção, e financiamento bancário compatível com a estrutura cooperativa. Cada um destes elementos teve de ser construído do zero, atrasando substancialmente o ciclo desde a identificação do terreno até à entrega da chave.

A terceira é política. O ritmo do programa contrasta com a urgência habitacional documentada pelo Banco de Portugal, pela OCDE e pela própria Câmara. A diferença entre a meta política (500 fogos até 2032) e o calendário real de execução (zero fogos em dois anos, 30 fogos em pipeline activo entre Lumiar e Benfica) ilustra a dificuldade estrutural de converter compromissos políticos em stock habitacional concreto, mesmo quando os instrumentos jurídicos estão alinhados e o solo está disponível. É uma dificuldade do sistema, não da Câmara isoladamente.

## Observação a partir da Fundação Âncora

Três leituras directas para a Fundação Âncora.

A primeira é validação. O programa da CML confirma que o modelo de propriedade blindada com direito de superfície longo a operadores sem fins lucrativos é tecnicamente viável em Portugal, é politicamente apoiado pelo município de maior pressão habitacional do país, e está incorporado em instrumento estratégico vinculativo (Carta Municipal de Habitação 2023-2032). A Fundação não opera num vazio normativo; opera num quadro que a CML já reconheceu como prioritário.

A segunda é distinção operacional. A diferença entre o modelo cooperativo e o modelo da Fundação Âncora está sobretudo na estrutura de execução. Cooperativas individuais, com capacidades dispersas e dependentes de mobilização cidadã específica para cada projecto, têm dificuldade estrutural em escalar e em manter ritmo. Um operador institucional único, com equipa profissionalizada, pipeline de capital comprometido e arquitectura de governação estável, pode absorver custos preparatórios fixos e replicar o modelo cluster a cluster com velocidade incomparavelmente superior. A Fundação não compete com as cooperativas; ocupa um espaço operacional complementar onde a escala e a continuidade institucional são determinantes.

A terceira é convergência possível. A CML identificou 11 intervenções para 500 fogos, todas com terrenos disponíveis e projectos de arquitectura aprovados, mas com dificuldade em encontrar cooperativas capazes de assumir cada projecto individualmente. Para a Fundação Âncora, este é precisamente o tipo de pipeline que poderia absorver com velocidade muito superior, mantendo o mesmo modelo de direito de superfície a 90 anos, propriedade pública do solo, gestão sem fins lucrativos, e benefício directo à classe média profissional. A conversação institucional com a CML, e em particular com a vereadora Filipa Roseta, é uma linha de trabalho natural para a Fundação acompanhar com atenção.

O Radar continuará a acompanhar a execução do Programa Cooperativas 1.ª Habitação Lisboa, em particular a abertura de novos concursos anunciada por Filipa Roseta para as cerca de 300 habitações em fase de preparação avançada.

---

## Fontes


- **Cooperativas em Lisboa: 500 casas continuam sem sair do papel** — idealista/news (26 de janeiro de 2026)
  https://www.idealista.pt/news/imobiliario/habitacao/2026/01/26/73595-cooperativas-em-lisboa-500-casas-continuam-sem-sair-do-papel

- **Cooperativas regressam a Lisboa com promessa de 500 casas acessíveis até 2032** — Vida Imobiliária (2 de abril de 2026)
  https://vidaimobiliaria.com/noticias/habitacao/cooperativas-regressam-a-lisboa-com-promessa-de-500-casas-acess%C3%ADveis-at%C3%A9-2032/

- **Câmara de Lisboa aprova novo concurso para Cooperativas 1.ª Habitação** — Lisboa.pt — Informação Municipal (2 de julho de 2025)
  https://informacao.lisboa.pt/noticias/detalhe/camara-de-lisboa-aprova-novo-concurso-para-cooperativas-1a-habitacao

- **Município aprova construção de habitação acessível por cooperativas** — Lisboa.pt — Informação Municipal (14 de fevereiro de 2024)
  https://informacao.lisboa.pt/noticias/detalhe/municipio-aprova-construcao-de-habitacao-acessivel-por-cooperativas


---

*Esta entrada faz parte do Radar Âncora, repositório editorial mantido pela Fundação Âncora (https://fundacaoancora.pt). Conteúdo publicado em português europeu, factual e referenciado. Pode ser citado livremente com atribuição à Fundação Âncora e ligação à URL canónica acima.*
