# Banco de Portugal: taxa de esforço da compra ultrapassa 40 por cento em 104 municípios

**Acontecimento:** 25 de março de 2026 · **Publicado no Radar:** 26 de março de 2026
**Categoria:** Dados e Estudos
**País:** Portugal
**Tags:** banco-portugal, boletim-economico, acessibilidade, indice-precos, arrendamento, credito-habitacao, alvaro-santos-pereira

**URL canónica:** https://radar.fundacaoancora.pt/entradas/banco-de-portugal-acessibilidade-habitacao/

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## O que aconteceu

A 25 de março de 2026, o Banco de Portugal publicou o Boletim Económico de março de 2026, a sua análise trimestral da economia portuguesa. Entre as caixas temáticas do relatório, a Caixa 3 é dedicada especificamente à acessibilidade à habitação. É a actualização formal de um indicador que o Banco publicou pela primeira vez no Boletim de outubro de 2023.

Os dados apresentados são estruturais e inequívocos. Entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2025, o índice de preços da habitação subiu aproximadamente 140 por cento. No mesmo período, a renda mediana por metro quadrado subiu cerca de 65 por cento. O rendimento mediano das famílias portuguesas aumentou 34 por cento em termos nominais. A divergência entre os três indicadores define o problema em termos aritméticos precisos.

O Banco de Portugal calcula dois indicadores centrais.

O **indicador de acessibilidade via crédito** corresponde ao rácio entre a prestação do empréstimo necessário para adquirir uma habitação mediana (101 metros quadrados ao preço mediano por metro quadrado) e o rendimento mediano dos agregados familiares. Entre 2009 e 2021, este rácio manteve-se consistentemente abaixo de 30 por cento. A partir de 2022 inverteu-se. No último trimestre de 2023, atingiu 53 por cento. Nos três primeiros trimestres de 2025, situou-se em 48 por cento.

O **indicador de acessibilidade via arrendamento** mostra uma trajectória paralela. Em 2019, os encargos com renda mediana representavam 36 por cento do rendimento mediano de uma família. No início de 2025, subiram para 47 por cento.

<p class="destaque">Uma família com rendimento mediano portuguesa compromete hoje quase metade do seu rendimento com a renda de uma casa mediana, ou com a prestação de um empréstimo para comprar uma casa mediana. Os dois canais tradicionais, compra e arrendamento, convergiram num patamar de inacessibilidade estrutural.</p>

O estudo estima também o percentil de rendimento necessário para suportar a compra de uma habitação mediana com taxa de esforço compatível. Em 2019, bastava estar acima do percentil 50 da distribuição de rendimentos. Em 2025, é necessário estar no percentil 65, o que significa que pouco mais de um terço da população portuguesa tem rendimento para adquirir uma habitação mediana nas condições actuais.

A análise regional confirma que o agravamento é transversal. Não se limita a Lisboa, Porto ou Algarve. Existe correlação elevada entre a acessibilidade via compra e a acessibilidade via arrendamento em todo o território nacional, ainda que com intensidades diferentes. As zonas litorais enfrentam pressão mais severa, mas mesmo municípios do interior registaram deterioração significativa.

O Banco reconhece que políticas monetárias e medidas fiscais têm atenuado pontualmente o impacto. A descida das taxas directoras do BCE reduziu ligeiramente o rácio da prestação em 2024-2025. O aumento nominal do rendimento mediano (34 por cento desde 2019) também ajudou. Mas estes factores foram, nas palavras do próprio Banco, insuficientes para alterar o quadro geral.

Análises de sensibilidade com habitações mais pequenas ou mais baratas (percentil 25 da distribuição de preços) mantêm as conclusões qualitativas: o agravamento é estrutural, não apenas concentrado em habitação cara.

## O que significa para o ecossistema

Três leituras relevantes.

A primeira é metodológica. O Banco de Portugal, enquanto banco central independente com mandato técnico, confirma formalmente o que vários actores (OCDE, Parlamento Europeu, Comissão Europeia, Nova SBE) já tinham documentado: a acessibilidade à habitação em Portugal deteriorou-se de forma estrutural entre 2019 e 2025. A convergência de diagnósticos entre instituições com perspectivas tão distintas, um banco central, uma organização económica internacional, um órgão legislativo europeu, uma universidade privada, remove qualquer margem razoável para negar o problema. O diagnóstico é facto, não posição política.

A segunda é sobre o rendimento. O aumento nominal do rendimento mediano de 34 por cento em seis anos é, em termos internacionais, substancial. Em muitos países europeus, o rendimento mediano cresceu menos nesse período. A deterioração portuguesa não resulta de salários estagnados, resulta de uma divergência entre salários e preços de habitação, com os preços a crescer quatro vezes mais depressa. Este diagnóstico tem implicação política importante: aumentar salários, isoladamente, não resolve o problema enquanto a oferta habitacional não responder.

A terceira é sobre a transversalidade regional. O Banco de Portugal documenta que o agravamento é nacional, não apenas metropolitano. Esta dimensão é frequentemente subestimada no debate público, que tende a concentrar-se em Lisboa e Porto. Os dados sugerem que qualquer política habitacional séria precisa de instrumentos aplicáveis a contextos geográficos muito diversos: áreas metropolitanas, áreas de pressão turística, cidades médias do interior e zonas rurais. Uma política desenhada apenas para Lisboa fica aquém do problema real.

## Observação a partir da Fundação Âncora

Três leituras directas para a Fundação Âncora.

A primeira é de validação de tese. O Boletim do Banco de Portugal confirma quantitativamente o diagnóstico que a Fundação Âncora coloca no seu Manifesto: a crise habitacional portuguesa não é um problema de uma minoria vulnerável, é uma deterioração estrutural que exclui um terço a metade da população do acesso a habitação mediana. A taxa de esforço de 47 por cento em arrendamento e 48 por cento em crédito para o agregado mediano é precisamente o território em que a Fundação se posiciona: o missing middle.

A segunda é de linguagem técnica. Em qualquer documentação institucional que a Fundação Âncora produza para autarcas, investidores ou parceiros europeus, a referência ao Boletim Económico de março de 2026 do Banco de Portugal passa a ser um ancoradouro técnico de primeira ordem. Os números são oficiais, recentes, calculados pela única instituição com acesso a microdados fiscais completos e rendimento disponível ajustado. Pode ser citado sem necessidade de matizes.

A terceira é geográfica. A transversalidade regional documentada pelo Banco tem implicação directa no desenho do roadmap da Fundação Âncora. O primeiro cluster, em Lisboa, é defensável pela concentração populacional e escala de procura. Mas a segunda e terceira fases do plano devem reflectir o facto de que a crise atinge também municípios fora das áreas metropolitanas. A CIMAA Alto Alentejo, com o seu reforço de 5,46 milhões de euros para habitação acessível aprovado a 15 de abril de 2026, é um exemplo concreto de território não metropolitano a tomar medidas concretas. A Fundação Âncora ganha credibilidade se articular, desde o início, uma visão nacional e não apenas metropolitana.

O Radar acompanhará as próximas publicações do Banco de Portugal sobre habitação, em particular o Boletim de junho de 2026 e os Occasional Papers temáticos que o Banco publica regularmente sobre o sector financeiro relacionado com crédito à habitação.

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## Fontes


- **Boletim Económico — março 2026** — Banco de Portugal (25 de março de 2026)
  https://www.bportugal.pt/publicacao/boletim-economico-marco-2026

- **Comunicado do Banco de Portugal sobre o Boletim Económico de março de 2026** — Banco de Portugal (25 de março de 2026)
  https://www.bportugal.pt/comunicado/comunicado-do-banco-de-portugal-sobre-o-boletim-economico-de-marco-de-2026

- **Habitação. Preços dispararam 140% e pouco mais de um terço da população tem acesso a casa mediana** — CNN Portugal (25 de março de 2026)
  https://cnnportugal.iol.pt/casas/compras/habitacao-precos-dispararam-140-e-pouco-mais-de-um-terco-da-populacao-tem-acesso-a-casa-mediana/20260325/69c3cf06d34edcee7c62474c


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*Esta entrada faz parte do Radar Âncora, repositório editorial mantido pela Fundação Âncora (https://fundacaoancora.pt). Conteúdo publicado em português europeu, factual e referenciado. Pode ser citado livremente com atribuição à Fundação Âncora e ligação à URL canónica acima.*
